quinta-feira, 4 de junho de 2015

"O Jogador", de Robert Altman


O Jogador (The Player – 1992)
O longo plano-sequência que inicia a obra, que é visto por muitos como uma homenagem reverente ao plano inicial de “A Marca da Maldade”, de Orson Welles, eu considero uma tremenda crítica de Robert Altman, que escolhe estabelecer o tom de ironia logo nos primeiros minutos. A artificialidade que reflete o pior de Hollywood, o estilo chamando mais atenção que o conteúdo, ou, numa definição mais objetiva, o tratamento de algo banal com um verniz de grande importância. 

O executivo que enxerga a produção cinematográfica apenas como uma possibilidade de flertar com belas atrizes, o lobby agressivo e calculado, o bajulador que, pelas costas, ninguém suporta, são variações do comportamento padrão nessas relações mentirosas e superficiais que o roteiro sublinha em cenas com um precioso senso de humor. Altman afirma que não é possível estimular a criatividade, elemento essencial na manutenção de uma indústria, quando a integridade artística é eclipsada por um embate de interesses antagônicos à própria arte, como na cena em que o roteirista assume ter mudado completamente sua ideologia, que defendia a ausência de finais felizes e estrelas famosas, após perceber que ganharia mais dinheiro abraçando a opção dos produtores. 

O artista não é um trabalhador comum, ele precisa entregar aquilo que o público não espera encontrar, algo que ele nunca imaginou que precisaria. O ato de correr riscos é imprescindível, exatamente uma antítese da atitude do personagem vivido com competência por Tim Robbins, um produtor que precisa ser convencido a apostar no projeto dos sonhos de estranhos, após escutar, sem muita atenção, um resumo de vinte e cinco palavras ou menos, transformando o cinema em ordinário esforço publicitário, um jogo onde as ideias mais impactantes são compradas, duas linhas em um roteiro de páginas em branco. A velha Hollywood, aquela elegância, celebrada nostalgicamente pelo escritor dos cartões ameaçadores, já havia morrido na época do filme, que aponta, em seu impecável desfecho, o rumo acomodado dessa nova Hollywood. E, profético, o roteiro já apontava para uma indústria cada vez mais escrava das estatísticas, que escolhe os rumos de uma trama mediante o gosto popular, buscando apenas satisfazer o público, entregando, empacotado e com um belo laço de fita, exatamente o produto requisitado pelos pagantes na fila do fast-food. 

É o panorama que vemos hoje, com a banalização das refilmagens, conceitos de sucesso já garantido sendo reutilizados, reboots de obras realizadas há poucos anos. Altman, num toque de gênio, escolhe convidar grandes nomes da era de ouro para esse divertido velório do cinema de sua geração, colocando Jack Lemmon, ao piano, como responsável pelo réquiem. “O Jogador” pode não ser o filme mais perfeito do diretor, mas, sem dúvida, é meu favorito em sua filmografia. 

* O filme está sendo lançado em DVD, com um ótimo documentário, pela distribuidora "Versátil".

Chumbo Quente - "Caravana de Mulheres"


Caravana de Mulheres (Westward The Women – 1951)
Um grupo de 150 mulheres liderado por Buck Wyatt (Robert Taylor) atravessa o Oeste americano em direção à Califórnia. O maior objetivo da viagem é arranjar esposas para os trabalhadores da fazenda de Roy Whitman (John McIntire), o organizador do grupo que dirige um rancho quase totalmente habitado por homens.


É interessante traçar um paralelo entre esse clássico pouco lembrado do diretor William A. Wellman, também conhecido pelo título: “O Poder da Mulher”, e dois filmes lançados nacionalmente nesse ano: “Mad Max – Estrada da Fúria”, essencialmente um faroeste, e “Dívida de Honra”, dirigido por Tommy Lee Jones. Os três discutem o papel da mulher na sociedade, subvertendo e desmistificando, em tom claro de crítica, as funções usuais dos personagens em uma obra do gênero, que é, invariavelmente, machista. Wellman é lembrado por ter sido o responsável pelo épico mudo “Asas” (1927), o primeiro ganhador do Oscar, mas sua contribuição para o cinema é muito mais interessante, com tesouros que merecem ser redescobertos, como “Mendigos da Vida” (1928), além do clássico gângster “Inimigo Público” (1931), os excelentes “Beau Geste” (1939) e “Consciências Mortas” (1943), e, um tesouro esquecido de guerra: “O Preço da Glória” (1949).

Frank Capra, o homem por trás de “A Felicidade Não se Compra” e tantos outros inesquecíveis tearjerkers, vendeu a história, que planejava dirigir, para Wellman, porém, em vários momentos, é perceptível o toque do italiano, especialmente na bonita subtrama envolvendo uma criança, filho de uma das valentes mulheres da caravana, e seu fiel cãozinho. O personagem vivido por Robert Taylor, que parece defender o papel conscientemente exagerando todos os maneirismos típicos dos heróis da época, numa espécie de sátira, é colocado, ao longo da trama, como um coadjuvante de luxo que tem seus preconceitos reavaliados minuto a minuto.

Uma cena que evidencia sua função ocorre quando uma das diligências perde uma roda, com uma das mulheres parindo o filho em seu interior. Todas elas se reúnem, utilizando seus corpos como alavanca para que nada atrapalhe aquele momento mágico, enquanto o homem, à distância, testemunha o real significado da nobreza. O interesse do diretor não está nas batalhas com os índios, clichê da época, que nem são mostradas, mas, sim, em celebrar a união dessas personagens na superação dos obstáculos mais comuns, como a descida das diligências por um íngreme desfiladeiro. 

* O filme está sendo lançado em DVD pela distribuidora "Classicline".

terça-feira, 2 de junho de 2015

"O Exterminador do Futuro", de James Cameron


O Exterminador do Futuro (The Terminator – 1984)
A franquia criada por James Cameron, a meu ver, morreu com o desfecho de “O Exterminador do Futuro 2 – O Julgamento Final”, um excelente filme de ação, uma das melhores sequências da história do cinema. Não dou a mínima para esse novo subproduto que estão lançando, “Genisys”, mais uma tentativa de espremer essa laranja para uma geração acostumada com muito barulho e pouca substância. Os dois anteriores, medonhos, provaram total ignorância dos produtores, desrespeitando a essência de filme B sci-fi do original, uma obra de horror, com um clima opressivo de pesadelo que não encontrei nos anteriores e, pelos trailers, acredito que não irei encontrar no novo. Então, sem mais delongas, irei voltar minha atenção para o original.

O roteiro é um exemplo de precisão, sem gordura extra, inteligentemente utilizando o baixo orçamento como ferramenta para construir suspense, valorizando sombras e insinuação, o monstro que parece mais ameaçador na imaginação do espectador. O ciborgue, vivido por Arnold Schwarzenegger, caminha lentamente, como os assassinos sobrenaturais dos slashers. E essa atitude incita no público, inconscientemente, a constatação aterrorizante: ele poderia correr mais rápido que qualquer humano, ele é superior, porém, ele prefere perturbar suas vítimas psicologicamente antes do ataque mortal. Quando ele persegue Sarah Connor, vivida por Linda Hamilton, quase sempre filmado de um ângulo baixo, ele se torna mitológico, aquele ser que se esconde embaixo da cama das crianças, o medo primitivo. E ela, vítima, acaba agindo como criança. O silêncio dele, recurso muito eficiente, intensifica sua presença física, aliado ao vermelho do olho robótico, uma cor que transmite fúria. É interessante como a produção escolheu um ator franzino, Michael Biehn, para viver Kyle Reese, alguém que foge completamente da imagem de herói de ação. O contraste físico entre essas duas forças em conflito é importante, outro elemento que parece ter sido ignorado no filme mais novo.

O trabalho magnífico de Stan Winston, responsável pela criação da icônica imagem do esqueleto metálico de T-800, ainda que esteja datado hoje, eu considero mais visualmente impactante que o produto da computação gráfica atual. Vale salientar também os interlúdios românticos, fotografados por Adam Greenberg em tom onírico, que transmitem a melancolia da relação do trágico casal, o senso de aniquilação à espreita, um clima comparável ao de “Blade Runner”. Antes mesmo de o público ser apresentado ao conceito do ciborgue, a fotografia monocromática em tom azul do filme já estabelece, sem auxílio de diálogos, a soberania das máquinas nas primeiras cenas. Não há qualquer tom de verde, por exemplo, somente a escuridão da noite. Quando Schwarzenegger aparece pela primeira vez, o espectador da época, ignorante sobre a trama, já tinha consciência de que estava diante de uma daquelas máquinas ameaçadoras. Cameron, em poucos minutos e com baixo orçamento, consegue dizer todo o necessário sobre o universo de seus personagens. A simples imagem do tanque passando por cima do crânio humano é mais eficiente que todas as explosões em computação gráfica dos filmes posteriores. 


* A editora "Darkside Books" está lançando a versão em romance do roteiro original, assinado pelo próprio James Cameron, em parceria com o roteirista Bill Wisher e o escritor Randall Frakes. O livro, como todos da editora, surpreende pela impecável apresentação. Além de ser imprescindível para os fãs do filme, ele fica lindo na estante.

domingo, 31 de maio de 2015

Faces do Medo - "Zombie - O Despertar dos Mortos"


Zombie - O Despertar dos Mortos (Dawn of The Dead – 1978)
“A Noite dos Mortos-Vivos” é puro instinto, cinema de guerrilha, atmosfera, soco no estômago, claustrofobia, um ato ousado que modificou o cenário do horror no mundo todo, inspirando toda uma geração de cineastas, uma trama simples e apavorante, onde a ameaça não era representada por monstros ou psicopatas, mas, sim, por entes queridos falecidos. Como é salientado em uma das cenas da continuação, o apocalipse zumbi poderia ter sido evitado, caso as pessoas tivessem vencido suas amarras morais e matado seus familiares infectados. Esse conceito revolucionário, que adicionou o canibalismo como recurso visual de impacto, foi, talvez, a última grande criação no gênero, vítima atualmente de reutilizações pouco inspiradas.

Com “Zombie - O Despertar dos Mortos”, George Romero deixou o instinto um pouco de lado, mais confiante enquanto realizador, e calculou cada página de seu roteiro em escala épica. Enquanto o anterior era o exercício apaixonado de um jovem, essa sequência é o trabalho de um profissional maduro, com total domínio de sua pretensão, além de pleno controle criativo. No anterior, os caipiras americanos, que, sorridentes, tiravam fotos com os zumbis mortos, representavam a estupidez humana, os verdadeiros monstros da história, já que não eram acéfalos. A escolha do alvo, dessa vez, foi mais corajosa, uma crítica social mais abrangente e exposta sem sutileza, os zumbis do consumismo, aqueles que, mesmo após a morte, escolhem retornar para o ambiente em que se sentiam mais confortáveis, um imenso centro comercial. A claustrofobia dá lugar ao marasmo padronizado de vitrines e escadas rolantes. O tema é implacavelmente atual, quando analisamos, por exemplo, a comoção popular que sucede cada lançamento de um novo aparelho eletrônico, ou a ansiedade de uma pessoa que gasta o dinheiro suado em caríssimas roupas de grife, pagando pela marca, apenas para satisfazer um subjetivo status social. E se pensarmos que, na época, não havia tantos shopping centers, podemos dizer que Romero foi profético em sua visão. É impossível negar o mérito do maquiador/técnico de efeitos visuais Tom Savini, que deu o tom do gênero nas produções que se seguiram, especialmente as europeias, abusando do gore.

Acho interessante como o roteiro já evidencia a crítica social antes mesmo do primeiro zumbi aparecer, numa curta cena que nunca é lembrada, quando os policiais estão se preparando para invadir o prédio com os porto-riquenhos. Eles vivem abaixo da linha da pobreza, estranhos em uma terra estranha, porém, um dos policiais afirma, com ódio no olhar, que aqueles desgraçados possuem muito mais do que ele. A inveja do ser humano, sintoma de insegurança, é um dos estímulos que o conduz à compensação material, o convite para o consumismo, o que explica a preferência do “ter”, em detrimento do “ser”, que é o refinado resultado de uma mente emocionalmente madura. 

* O filme está sendo lançado em Blu-ray, em três versões, com excelentes extras, pela distribuidora "Versátil", em parceria com a "Livraria Cultura". Dentro do estojo, um belo pôster, que pede uma moldura. 

quinta-feira, 28 de maio de 2015

Blaxploitation - "A Fúria do Poderoso Chefão"

Link para os textos do especial:


A Fúria do Poderoso Chefão (The Black Godfather – 1974)
Um filme pouco lembrado, da primeira fase do fenômeno blaxploitation, escrito e dirigido por John Evans, com um fiapo de trama trabalhado de forma praticamente amadora, sustentado pelo carisma do protagonista, vivido por Rod Perry, um delinquente que é apadrinhado por um chefão do crime, vivido por um Jimmy Witherspoon cheio de atitude, após uma tentativa desastrada de furto. O homem valoriza a coragem do jovem, que, de uma hora pra outra, acaba se transformando em alguém elegante, educado, e, por incrível que pareça, ele se mostra mais competente que o chefão. Como o roteiro não sabe estruturar um mínimo de suspense, os anos de experiência, na prática, dão a impressão exata de alguns dias na vida do rapaz. Você simplesmente é levado a acreditar que ele é extremamente competente, já que não há uma cena sequer, nesse hiato de transformação, que mostre ele em ação.

Os defeitos agregam à diversão, criticar tecnicamente esses filmes é assinar um atestado de ignorância, desmerecendo o contexto das obras e, especialmente, o descompromisso dominante nas produções. O que vale é perceber o desconforto de grande parte do elenco ao ditar, de forma quase robótica, as linhas de diálogo totalmente artificiais, que contrastam com o tom de naturalidade que as tramas se esforçam em alcançar. Dar risada com os bate-bocas fartos de xingamentos inspirados, alguns intraduzíveis, como na cena de pancadaria com Tony Burton, conhecido pelo papel de treinador do Apollo Creed, nos filmes da franquia “Rocky”, num salão de ginástica improvisado. É impossível não torcer para que o protagonista arrebente a cara do arrogante traficante branco, um racista cruel, vivido por Don Chastain, um personagem tão caricato que parece saído de um desenho animado. A trilha sonora, normalmente um ponto alto nessas produções, não empolga, nem encanta, com uma mistura desconcertante de estilos, com a inclusão de um irritante sintetizador, que parecem ter sido escolhidos na base do uni, duni, tê.

Pegando carona descarada no sucesso da obra-prima de Coppola, o filme não é dos melhores, porém, considero superior, por exemplo, ao respeitado “Sweet Sweetback’s Baadasssss Song”. Com o orçamento que tinham, fizeram milagre.