quarta-feira, 11 de abril de 2018

Cine Bueller - "O Último Americano Virgem", de Boaz Davidson


O Último Americano Virgem (The Last American Virgin - 1982)
Começo dizendo que este é um daqueles filmes que fizeram todos os garotos introvertidos da década de oitenta sonharem em trabalhar como entregadores de pizza. Vários projetos seguiam esta tendência. Você, com sorte, seria praticamente estuprado por alguma milf ninfomaníaca sensacional como a Carmelita, vivida pela Louisa Moritz. E quem não sonhou em namorar a Karen (Diane Franklin)? Claro, ela provavelmente iria partir seu coração sem piedade, mas o processo até o desfecho valeria a pena.

Antes de continuar, um breve agradecimento, creio que represento todos os brasileiros neste momento: Grato eternamente, SBT, por ter apimentado as nossas tardes com nudez gratuita e todo tipo de pilantragem. Escutar o Mario Jorge dublando o gordinho, improvisando alopradamente e melhorando consideravelmente o material original, faz eu ter pena desta criançada de hoje, refém das bobeiras dos youtubers teens. E, mesmo com a emissora cortando várias cenas mais fortes, como aquela em que as meninas cheiram carreiras de açúcar, tolinhas, solução encontrada pelo trio de amigos para mantê-las interessadas na paquera, boa parte das ousadias temáticas passavam tranquilamente.

O filme é uma refilmagem quase que idêntica do israelense "Sorvete de Limão", dirigido pelo mesmo Boaz Davidson, acompanhando as aventuras sexuais de três rapazes. O mais tímido e respeitador, Gary (Lawrence Monoson), acaba se apaixonando perdidamente pela garota que está saindo com o cara popular da escola. Ela despreza o garoto, até que, após ser abandonada grávida, encontra nele seu refúgio. Ao som de "I Will Follow", do U2, o rapaz vende tudo que tem, faz o diabo para conseguir levantar a grana do aborto, depois de ter oferecido moradia provisória para a menina se esconder dos pais, sacrifício tremendo que culmina na sequência final mais triste do cinema adolescente do período. Posso estar exagerando, mas até hoje, quando escuto "Just Once", do James Ingram, sinto vontade de tacar uma pedra na televisão. Eu, obviamente, sentia forte identificação com o Gary, logo, aquele flagra na cozinha me traumatizou. Que garota miserável! Naquele momento ele realmente perdeu a "virgindade", a pureza, a crença na bondade humana. O mundo é injusto.

O primeiro ato focado nas estripulias adolescentes é divertido, mas é similar a tantos outros de sua época, como "Porky's". O coração do filme é o que mantém ele relevante até hoje, sobrevivendo muito bem na revisão. 

terça-feira, 10 de abril de 2018

Sétima Arte em Cenas - "Nazaré", de Manuel Guimarães


Nazaré (1952)
Manuel Guimarães, falecido em 1975, é um dos cineastas mais injustiçados do cinema português, praticamente esquecido hoje em sua própria terra, ele foi vítima da censura política salazarista e da inveja de seus colegas.

Em uma década marcada pela preguiça criativa em sua indústria, ele ousou produzir sem recursos, por exemplo, experimentando com a utilização da cor, dos 70mm e, com o divertido "A Costureirinha da Sé", a grandiosidade do CinemaScope. Ainda jovem, trabalhou como assistente de direção do grande Manoel de Oliveira em "Aniki Bóbó", pérola que frequentemente resgato no blog. Após o curta "O Desterrado", decidiu arriscar voos mais altos com o longa-metragem "Saltimbancos", mas foi com "Nazaré", seu segundo trabalho, com roteiro de Alves Redol, que ele potencializou o viés da crítica social, desconstruindo o folclórico paradigma heroico, esperançoso e nacionalista relacionado ao mar, utilizando a estética neorrealista para mostrar o sofrimento dos pescadores e de seus familiares na pobre comunidade de Nazaré. Ao contrário das obras de cineastas conterrâneos, como Leitão de Barros, não há hipócrita senso de honradez na miséria, ou qualquer tentativa de mistificar a rotina excruciante do povo. Os homens marginalizados no filme de Guimarães lutam para sobreviver contra todas as probabilidades, exatamente a imagem realista e pessimista que o regime do Estado Novo desesperadamente queria esconder debaixo do tapete.

O tom trágico é estabelecido já nos primeiros segundos, com o lamento devastador de uma mãe que encontra o corpo sem vida de seu filho estirado na areia da praia. Os melhores diálogos envolvem desabafos de pescadores sobre a escassez de peixes, tentativas frustradas pela falta de sorte. Há ternura na interação entre avô e neto, com o pequeno demonstrando curiosidade pelas aventuras de outrora, mas o texto evidencia nas entrelinhas que o mais velho conscientemente reveste de magia suas palavras, transformando ludicamente a dor em aventura, evitando destruir tão cedo o fascínio do menino.

A realidade cruel é mostrada na forte sequência que ocorre aos quarenta minutos, quando o grupo de pescadores luta para vencer as ondas revoltas em um bote frágil, enquanto que, à distância, toda a comunidade sai correndo de suas casas em direção à praia, orando de joelhos, aos prantos, impotentes. A montagem insere então a desesperadora imagem das mulheres tentando abrir caminho através das grades que isolam o barco salva-vidas. E, intercalado com o pavor dos homens diante da morte certa, vemos a massa humana que literalmente carrega nos ombros com extrema dificuldade a salvação. A cena bebe da fonte de Eisenstein, mas o coração é puramente português. 

segunda-feira, 9 de abril de 2018

Sobre os fervilhantes acontecimentos políticos do final de semana...


O sistema político brasileiro é podre, reflete de forma cristalina o modus operandi de grande parte do povo. Após décadas em estado de coma, preocupado apenas com futebol e novela, o gigante acordou e saiu tropeçando em tudo. A internet ajudou, o "público" que antes se resumia aos vizinhos, familiares próximos e colegas de trabalho, aumentou sobremaneira. Com péssima interpretação de texto, poupou tempo e se acostumou a dissertar sobre qualquer tema a partir das manchetes, inclusive as falsas. Nunca subestime a estupidez humana, saiba que existem pessoas alfabetizadas e diplomadas neste momento elaborando planos para provar que a Terra é plana.

Ao negar a lucidez, abriu-se espaço para o sentimento mais rasteiro e fácil, o ódio. A discussão política foi ganhando tons cada vez mais agressivos, logo, os perigosos extremos foram potencializados. Adultos infantilizados acreditam em qualquer teoria da conspiração e enxergam "heróis" e "vilões" sem tons de cinza, nunca foi tão fácil posar de indivíduo consciente, basta participar de manifestações e, claro, postar várias fotos das esfuziantes caminhadas nas redes sociais. A intenção é boa, mas não há como amadurecer o sonolento pensamento crítico político em poucos anos, faz parte do processo agir de forma apatetada. Vista a bandeira do país pela manhã nas ruas e passe o restante do seu dia somando no coro rancoroso e desafinado dos vigilantes sonâmbulos, esbravejando frases de efeito e piadas de duplo sentido, continue encarando a vida como uma revista em quadrinhos de super-heróis, defenda que não há tempo para o hábito da leitura enquanto acompanha por horas as fofocas divertidas nos seus duzentos grupos de Whatsapp. É exatamente de pessoas como você que o sistema necessita para se manter podre.

Finalizo com uma objetiva reflexão sobre os acontecimentos históricos do final de semana. A defesa apaixonada de um político em nossa sociedade é puro NONSENSE. É atitude para ser estudada com atenção, já que membros de seitas são propensos ao comportamento de mulher de malandro. Lula é o primeiro ex-presidente brasileiro preso por crime comum, inegável constatar que a força simbólica disto é monumental. O clássico "no Brasil tudo acaba em pizza", que a minha geração cresceu escutando, finalmente parece que está sendo reavaliado. O discurso de vitimização daqueles que endeusam seu guru é constrangedor, não há como sustentar a tese da inocência messiânica com um pouco de sensatez e uma dose generosa de vergonha na cara. O caso do triplex é, ao que tudo indica, o menor dos problemas. Ele responde por quatro tipos de crime em outros seis processos: corrupção passiva, lavagem de dinheiro, organização criminosa e tráfico de influência. Al Capone tocou o terror em sua época, mas só conseguiram prender ele por sonegação de impostos. E, com certeza, tinha gente que também achava que ele havia sido injustiçado.

Não é momento de alegria, muito longe disto, estamos atravessando momentos de profundo luto, apesar de haver esperança no horizonte, testemunhamos nos últimos anos e, especialmente, nos últimos dias, a incontestável falência de uma nação. Mas, nas palavras de Nietzsche: "Como se renovar sem primeiro se tornar cinzas?". É hora de, apoiado no cajado da lucidez, o povo brasileiro decidir amadurecer.

domingo, 8 de abril de 2018

"Desencanto", de David Lean


Desencanto (Brief Encounter - 1945)
Não é exagero inserir esta obra-prima do diretor David Lean em uma lista dos filmes mais românticos de todos os tempos. Adaptado da peça de Noël Coward, o tema foi absurdamente corajoso para o conservadorismo dominante da época, abordando o caso de amor proibido que desabrocha entre uma dona de casa (Celia Johnson) e um médico (Trevor Howard), ambos casados, em sucessivos encontros furtivos em um café na estação de trem. A infidelidade conjugal, questão espinhosa, nunca foi tratada com tanta sensibilidade e honestidade.

Ao reconhecer que o coração encontra maneiras de suprir suas necessidades, músculo incapaz de ser domado, o roteiro desarma o espectador de seus preconceitos e retira o manto de ilegalidade que, por si só, já evidencia o caráter antinatural do ato de tentar controlar o complexo sentimento com um contrato. O cenário dos encontros é pleno em simbolismo, reforçando a satisfação imediatista de cada olhar trocado. Algo que se inicia sem pretensão alguma, pura amizade, acaba evoluindo suavemente para o abraço de dois náufragos. O casal reconhece que é impossível sonhar com mais do que aqueles preciosos momentos, mas a experiência basta, a intimidade conquistada a partir do real interesse pelo outro, não a cumplicidade artificial acumulada em anos de convivência com um estranho. A angústia na voz da mulher, cuja narração nos conduz na trama em uma confissão silenciosa, revela implicitamente que, apesar de estar em uma situação financeira confortável, o padrão familiar desejado por todos, ela se sentiu em algum momento na necessidade de se adequar existencialmente na vida a um aquário menor, o brilho em seu olhar, quando percebida pelo médico, reflete a esperança que se recusa a morrer em seu interior. O seu marido (Cyril Raymond) é gentil, divertido, nobre, não deixa faltar nada, mas os diálogos deixam transparecer sutilmente o desinteresse, travestido de cordialidade excessiva. Ele a agrada para manter o relacionamento vivo na sociedade. E, como o filme mostra, o amor não é despertado somente pela ausência/carência, pode surgir naturalmente, sem estar sendo procurado, sem motivo aparente, como precioso diamante lapidado na rocha.

A emoção profunda do rápido toque de um dedo secretamente acariciando a mão do outro, a incerteza encapsulada em cada despedida, David Lean pode ter entrado para a história do cinema por seus épicos, como "Lawrence da Arábia", "A Ponte do Rio Kwai" ou "Dr. Jivago", mas ele ganhou meu coração na adolescência com esta pérola minimalista inesquecível. 

"Fuga de Sobibor", de Jack Gold


Fuga de Sobibor (Escape from Sobibor - 1987)
Baseado em uma história real, adaptado do livro de Richard Rashke, o filme aborda a fuga de prisioneiros de um campo de concentração nazista durante a Segunda Guerra Mundial. Sobibor, conhecido como "máquina da morte", é um dos três campos de concentração localizado na Polônia oriental. Um grupo de prisioneiros é temporariamente poupado para poder trabalhar no acampamento, sob condições degradantes impostas pelos oficiais nazistas. Relembrando o destino desumano de cada dia, os prisioneiros planejam o impossível.

A premiada produção feita para televisão ganha pontos pela fidelidade ao evento, resistindo à tentação de se debruçar num viés melodramático, pecado usual em obras tematicamente similares. Quando Jack Gold foi sondado para dirigir, este foi um aspecto fundamental, ele temia entregar mais um "filme sobre o Holocausto" típico, lucrando com a exploração do grotesco. Como retratar com fidelidade jornalística os horrores sem esbarrar na censura televisiva? Em sua mente, transformar o sofrimento dos judeus em um novelão, como em "Holocausto", de 1978, não era apenas grosseiro, como também zombava da memória do povo. 

O fator crucial em sua mudança de atitude foi o comportamento dos prisioneiros de Sobibor, não apenas o plano de fuga, mas a força de espírito impressionante dos judeus que, reconhecendo que a morte era inevitável, decidiram tomar o controle da situação. É uma imagem inspiradora. Indivíduos, em sua maioria, sem qualquer treino militar, mulheres, crianças, idosos, pessoas comuns que enfrentaram seus algozes. Outro elemento importante foi o senso de realismo, o campo havia sido destruído pelos nazistas, mas a reconstrução do cenário foi meticulosa, assim como a preparação dos figurinos, com o auxílio de relatos dos sobreviventes. A fotografia de Ernie Vincze opta inteligentemente por cores esmaecidas, agregando à pegada de documentário, já que o material de registro da época era ínfimo. A presença de Alan Arkin traz mais densidade às cenas, mas é o carisma de Rutger Hauer que emociona. 

A incrível sequência da fuga do grupo, que tomou cinco dias da equipe, teve a participação de um dos sobreviventes reais, Thomas Blatt, falecido em 2015. O diretor conta que ficou tremendamente emocionado quando, ao final do dia, o senhor foi trazido desorientado por alguns moradores da região. Ele reviveu tão intensamente o evento, captado com extrema autenticidade, que acabou se perdendo na floresta após correr por horas, amedrontado de verdade.