sexta-feira, 6 de abril de 2018

"Only Yesterday", de Isao Takahata


Only Yesterday (Omohide Poro Poro - 1991)
A trama de "O Gotejar da Memória" (tradução literal do japonês), adaptada do mangá de Hotaru Okamoto e Yuuko Tone, desprovida quase que completamente dos elementos fantásticos usuais nos projetos do estúdio Ghibli, acompanha a poética jornada de Taeko, uma jovem que sempre nutriu fascínio pela simplicidade do campo. Solteira aos vinte e sete anos de idade, ela é tida pela sociedade machista como alguém que desperdiçou sua vida e se tornou irrelevante. Tirando férias do trabalho burocrático na cidade grande, ela viaja para as fazendas rurais de Yamagata, ajudando nos negócios de sua família. Durante sua estada, perturbada por lembranças de sua transição da infância para a adolescência na década de sessenta, entre as tentativas frustradas de aprender matemática e o primeiro amor, a ascensão dos Beatles e a febre das ousadas minissaias, ela é acompanhada por sua contraparte infantil e busca fazer as pazes com seu passado, enquanto enfrenta o horizonte incerto em seu futuro. 

O minimalismo nos traços e nas cores, coerente ao tom bucólico do roteiro, elemento que seria trabalhado pelo diretor posteriormente no espetacular “O Conto da Princesa Kaguya”, pode ser percebido germinando nesta obra injustamente pouco celebrada. O aspecto que me encanta é a forma como Takahata extrai emoção de momentos simples, como quando a família da menina em flashback cuidadosamente saboreia pela primeira vez um abacaxi trazido pelo pai, após algum tempo tentando entender como comer aquela fruta tão diferente de tudo que eles conheciam. O tempo dedicado a cada pequeno gesto, o corte em pedaços, a alegria da menina ao sentir o cheiro na casca retirada, a mágica ternura da família reunida à mesa. E, injetando um toque cômico que subverte o tom melancólico da cena, finaliza com a reação pouco agradável ao sabor, mostrando o esforço da pequena Taeko em terminar seu pedaço apenas em respeito à atitude generosa do pai. A delicadeza ao tratar da primeira menstruação, tema que prejudicou a distribuição do filme no mercado exterior pela Disney, sem evitar situações cômicas envolvendo a reação apatetada dos meninos da classe, reforça a pegada adulta e realista do resgate emotivo. 

A protagonista percebe que abdicou de muitas experiências importantes para se adequar ao sistema, perdendo contato com sua essência e com os simples prazeres da vida no campo, ela aprende ao longo da viagem que até mesmo os eventos mais frustrantes, constrangedores ou aparentemente inofensivos foram fundamentais no processo de formação da sua personalidade, constatação que injeta lucidez na aceitação de um terreno desconhecido, outrora temido, a vida adulta. O belíssimo desfecho é de uma sutileza impressionante. Ao retornar de trem para a cidade grande, ela enxerga no desespero sem sentido de um passageiro desconhecido o vazio de sua existência. O voo da borboleta no vagão representando a maturidade enfim alcançada. Emoldurada pelos créditos finais, ao som da canção "Ai wa hana, kimi wa sono tane" (O amor é a flor, você é a semente), Taeko toma a decisão mais corajosa e importante de sua vida. Veja e se emocione com a arte eterna do mestre Isao Takahata.

quinta-feira, 5 de abril de 2018

"Covil de Ladrões", de Christian Gudegast


Covil de Ladrões (Den of Thieves - 2018)
Christian Gudegast estreia na direção, trabalhando com charme, porém, sem muita criatividade, o subgênero dos filmes de assaltos a banco. Na trama, um ladrão planeja o crime perfeito enquanto tenta ocultar um tenebroso segredo: ele pertence a duas facções rivais e sua sobrevivência depende que essa informação nunca chegue aos líderes destes movimentos.

O roteiro, escrito por Gudegast e Paul Scheuring, criador da série “Prison Break”, acerta ao incitar forte crítica aos excessos cometidos pelas figuras de autoridade policiais, liderados pelo personagem vivido por Gerard Butler, existencialmente perdido após ser afastado de suas filhas em um dolorido processo de separação conjugal, ressaltando a linha tênue que os separa daqueles que oficialmente são tidos como ameaças para a sociedade.

O problema é que a ausência de camadas de interpretação deixa um rastro de furos, algo que pode não incomodar os fãs inveterados de um estilo de ação mais despretensioso, mas, considerando a desnecessária longa duração, será altamente frustrante para o público em geral. Há interesse em apresentar os conflitos internos, emocionais, mas as caricaturas são pintadas em tintas fortes, especialmente o ladrão vivido por Pablo Schreiber, prejudicando a imersão e, por conseguinte, a compreensão de suas motivações e do desenrolar dos planos.

Outro ponto fraco é a maneira retrógrada e preguiçosa que a história trabalha as mulheres, parece que entramos numa máquina do tempo e saímos no auge de Charles Bronson e seus projetos do início da década de oitenta, cheio de strippers, damas em perigo e donas de casa unidimensionais. Pensada dentro do contexto atual, a obra já nasceu com o prazo de validade vencido.

Se comparado a “Fogo contra fogo”, de Michael Mann, fonte óbvia de inspiração em diversas cenas, “Covil de ladrões” chega a ser constrangedor em sua incoerência narrativa, diversão rasa para pouco mais de um par de horas, caso você não tenha nada melhor para fazer no dia. 

* Crítica publicada no Caderno B do "Jornal do Brasil" (05/04/18).

quarta-feira, 4 de abril de 2018

"Um Lugar Silencioso", de John Krasinski


Um Lugar Silencioso (A Quiet Place - 2018)
Começo o texto com uma observação importante sobre a experiência de se ver o filme na sala de cinema. "Um Lugar Silencioso" depende da educação do público. O conceito do silêncio trabalhado na trama, reforçado pela trilha sonora inteligente de Marco Beltrami, pode ser muito prejudicado pela deselegância habitual dos brasileiros. Não há imersão que se sustente quando o coletivo é incapaz de respeitar a experiência, risinhos fora de hora, engraçadinhos carentes de atenção, esfomeados atacando saquinhos de biscoitos a todo momento, luzes de celulares espocando de todos os lados, a beleza da proposta da obra pode ser destruída em questão de minutos. Então, eu torço para que você tenha a sorte de pegar uma sessão vazia.

O gênero do terror consegue mais uma vez entregar uma pérola inestimável a partir de uma ideia simples: o planeta foi invadido inexplicavelmente por monstros extremamente ágeis que são atraídos por barulho, logo, para manter-se vivo você precisa ficar em silêncio. O roteirista/diretor John Krasinski, que também protagoniza junto com Emily Blunt, sua esposa na vida real, acerta inicialmente ao se esquivar de qualquer contextualização, apostando na eficiência do medo potencializado pelo design de som e, principalmente, na metáfora defendida pela filha mais velha, vivida por Millicent Simmonds, atriz mirim que perdeu a audição aos doze meses de vida. A menina se culpa pela morte do irmão mais novo e é impedida pelos pais de visitar o sótão da casa, local em que estão armazenadas matérias em jornais sobre o fenômeno. A família é privilegiada por este diferencial, já que consegue se comunicar bem por sinais, habilidade que facilitou a adaptação nesta situação extrema.

E, sem revelar muito sobre a trama, vale destacar que a mensagem da superação ser alcançada pela aceitação da fragilidade/deficiência é potencializada no terceiro ato. A opção pela imagem que finaliza a obra pode ser tida por muitos como um tremendo desperdício, mas ela enfatiza o real interesse de Krasinski em estabelecer que a coragem precisa vencer o medo, ao invés da catarse cinematograficamente sedutora que qualquer produção similar entrega. O diretor aposta também em elementos hitchcockianos brilhantes, como quando avisa o espectador sobre o perigo que os personagens ainda desconhecem, construindo um suspense verdadeiramente angustiante com objetos de cena ínfimos e aparentemente inofensivos, como um prego solto no degrau de uma escada.

"Um Lugar Silencioso" é, desde já, um dos melhores filmes do ano. 

terça-feira, 3 de abril de 2018

"O Selvagem", de László Benedek


O Selvagem (The Wild One - 1953)
O corajoso Stanley Kramer produziu esta versão livre do famoso incidente ocorrido na pacata cidade de Hollister, Califórnia, que chocou os pais em 1947, após várias gangues de motoqueiros invadirem um evento festivo, tocando o terror por dois dias, exibindo generosas doses de vandalismo. 

Jovens marginalizados que haviam voltado da guerra e, sem grana, adaptaram suas surradas jaquetas de couro, trocando os nomes de seus aviões nas costas pelos símbolos de seus grupos de motociclistas. A imagem forte transmitia inegável ameaça, especialmente considerando o nível de caretice dos adultos norte-americanos da época. É claro que a imprensa lucrou alimentando os abutres, exagerando e até mesmo fabricando registros assustadores em fotos que estampavam as manchetes. O cinema não perdeu tempo, o clássico sacramentou o nome de Marlon Brando no panteão dos grandes atores mundiais. O curioso é que, apesar de ser um alerta crítico moralista que apontava a desilusão dos encrenqueiros como reflexo de suas angústias existenciais, o roteiro acabou incitando a garotada à rebeldia contra os pais e contra o sistema. O uniforme dos personagens atravessou fronteiras, influenciando até mesmo os adolescentes brasileiros, que, em pleno calor tropical, portavam seus canivetes, faziam cara de mal, apostavam rachas nas estradas e suavam em bicas tentando imitar seus ídolos. 

A cena inicial, após um letreiro imposto pela censura do Código de Produção enfatizando a desaprovação da conduta dos personagens, seguindo a narração de Johnny Strabler (Brando), com as motos vindo rapidamente na direção da câmera, dá o tom de perigo que nem mesmo a óbvia projeção traseira, emoldurada pelos créditos, consegue anestesiar. O grupo chega na cidade e, com os rostos impassíveis, atravessam calmamente a pista de corrida, obrigando o biker competidor a frear assustado. E, claro, minutos depois o troféu é roubado na cara dura por um dos rapazes. Não há tentativa de aliviar a responsabilidade de seus atos colocando a culpa em outrem, ou nas condições em que vivem, o roteiro evidencia a todo momento que a baderna faz parte da índole dos rapazes. Atitude selvagem, subversiva, indomável, que serviria de inspiração imediata para James Dean, Elvis Presley e a geração rock'n'roll, mas também desembocaria dezesseis anos depois no inesquecível "Sem Destino", de Dennis Hopper, até ser revisitada como pastiche no musical "Grease - Nos Tempos da Brilhantina", protagonizado por John Travolta e Olivia Newton-John, em 1978. 

"O Selvagem" está longe de ser perfeito, a subtrama romântica é rasa, prejudicada pela inexistente química entre Brando e a bela Mary Murphy, que vive uma garçonete comportada, antítese que irá representar a redenção do líder da gangue no terceiro ato. A trama envelheceu razoavelmente bem, mantendo seu charme. Mais que um simples filme, o gatilho para muitas das maiores mudanças culturais dos últimos cem anos. 

segunda-feira, 2 de abril de 2018

Sobre "Nada a Perder" e a triste situação do Brasil...


Eu fui questionado em 2016 por um leitor no Facebook sobre “Os Dez Mandamentos”. Respondi que gostava demais da trilha sonora de Elmer Bernstein e da atuação sempre imponente do grande Charlton Heston, mas que não era um fã do diretor Cecil B. DeMille, ainda que considere este o seu melhor projeto. O leitor enviou então um ponto de interrogação e um bonequinho coçando a cabeça. E, tropeçando nas letras, explicou que estava se referindo ao projeto nacional que estreava naquela semana. Não acreditei no que estava lendo, não era possível. Será que ele não sabia que eu sou um crítico de cinema? 

Tem outros profissionais gabaritados em crítica televisiva, crítica de reality shows e até mesmo gente que é paga para flagrar as subcelebridades tossindo na rua. Eu não era a pessoa certa para aquele questionamento, então expliquei isto gentilmente para o rapaz, ressaltando que analiso também filmes feitos para televisão, mas que, em hipótese alguma, eu perderia tempo analisando um remendo extraído de mais de 150 capítulos de uma novela, especialmente uma com o padrão de qualidade da emissora que esbanja hoje o lucro advindo de décadas de ofertas de pobres coitados, um dinheiro maldito conquistado em uma nação em que a inacreditável isenção tributária nas igrejas possibilita todo tipo de absurdos, como o poder milagroso do paletó abençoado, da fogueira santa, da chave ungida, da meia e das vassouras consagradas. E não é uma piada. Eu tenho nojo destes malandros que se aproveitam do analfabetismo científico do povo mais humilde, eu não poderia, em sã consciência, cogitar a hipótese de valorizar qualquer tipo de entretenimento que seja financiado por este coletivo de canalhas aproveitadores. 

Como artista, compreendo que meus colegas aceitem trabalhar em projetos da emissora, a vida não está fácil para ninguém, mas eu não aceitaria qualquer proposta que viesse deles. Eu não vou nem comentar os atos que causam vergonha alheia, muitos deles propagados na mídia, sobre a compra de ingressos e as salas quase vazias, sinal óbvio de lavagem de dinheiro, isto é o mínimo que se pode esperar de uma iniciativa tão grotesca. Vergonha alheia sempre foi uma especialidade desta rede de profissionais talentosos na arte do trambique. Escrevo tudo isto sabendo que estou atingindo apenas aqueles que já têm esta consciência. O público da novela, aqueles que buscam nas sessões evangélicas neopentecostais a cura de enfermos, não se interessa em ler críticas de cinema. Estes entregam até a chave de casa para os pastores, eu não preciso citar aqui os muitos casos tragicômicos que ilustram as manchetes dos jornais. A perfeita massa de manobra, indivíduos incapazes de praticar o raciocínio lógico, o questionamento crítico, doutrinados na prática da dissonância cognitiva, zumbis esfomeados, um gado que vive para enriquecer um sistema podre que cresce assustadoramente, com tentáculos que dominam perigosamente até a política. 

Agora, o novo “sucesso de bilheteria” das salas vazias é “Nada a Perder”, cinebiografia do líder da organização. Como sempre digo, sou contra qualquer tentativa de censurar arte, filmes de todas as ideologias devem existir. É óbvio que o roteiro visa unicamente santificar a figura do homenageado, o objetivo é atrair mais fiéis, para que mais malas de dinheiro sejam retiradas de helicóptero dos cultos. A proposta da obra é odiosa, celebrar uma figura pública que enriqueceu explorando a fé alheia, eu tenho todo direito de repudiá-la, apesar de respeitar sua existência. Ninguém obriga o indivíduo a entrar na igreja, podemos apenas tentar compreender o impulso que leva alguém a acreditar em exorcismos de endemoniados em 2018. E, analisando lucidamente, eu enxergo neste “fenômeno” o sintoma de um problema grave. Na esteira da onda conservadora que está tomando o país, estes estelionatários dos templos encontram público sedento por seus discursos rasteiros de ódio e segregação. 

O Brasil está entregue na garra dos lobos, aplaudidos por um povo que se afasta cada vez mais da literatura. Um povo que lê pouco e escreve mal, suja as ruas e destrói o transporte público que utiliza. O governo é o reflexo cristalino do inconsciente coletivo do brasileiro. Os absurdos se acumulando, o silêncio alarmante dos omissos ficando cada vez mais constrangedor, os espertos conquistando cada vez mais espaço nos veículos. A única esperança reside na educação, no amor pela cultura, no desejo constante pelo autoaprimoramento.