domingo, 4 de fevereiro de 2018

Ciclo de Clássicos das Artes Marciais - "The Killing Machine" e "Drunken Tai Chi"


The Killing Machine (Shorinji Kempo – 1975)
"Força sem justiça é violência. Justiça sem força é fraqueza." (frase do filósofo francês Blaise Pascal que fecha a obra)
Quando se fala em Sonny Chiba, muitos lembram de seu trabalho na trilogia "The Street Fighter", mas considero que seu melhor momento, como artista marcial e como ator, rara oportunidade que ele teve de construir várias camadas, está nesta pérola pouco conhecida, dirigida pelo japonês Norifumi Suzuki, com roteiro de Isao Matsumoto, que aborda a vida real de Doshin So, fundador do Shorijin Kempo, de sua infância traumática, passando pelo tempo em que foi soldado no período final da Segunda Guerra, até se tornar mestre. Chiba era seu aprendiz, logo, dá para imaginar a emoção que ele sentiu ao defender o personagem na tela grande. O tom é pesado, afinado no diapasão dramático trágico, aura que se reflete na forma como a técnica marcial é utilizada, com brutalidade e dose generosa de gore, primando pelas fechaduras de pulso rotacionais, especialidade do homenageado. A cena da castração do estuprador é marcante, cinematograficamente poderosa, mas o que fica após a sessão não são as sequências de luta. Não me lembro de outro filme do gênero que trabalhe com tanta eficiência a questão da importância da disciplina das artes marciais como força inspiradora e transformadora na vida dos mais jovens, auxiliando na superação de obstáculos e formando caracteres nobres. 


Drunken Tai Chi (Siu Tai Gik - 1984)
Esta produção da Dragons Group Film dirigida pelo grande Yuen Woo-ping, mais conhecido pela nova geração por ter sido o coreógrafo de "Matrix", poderia ser descartada como apenas mais um roteiro cômico com ótimas sequências coreografadas, mas há um elemento nela que merece ser salientado, o filme marca a estreia do espetacular Donnie Yen, vivendo um tipo muito diferente do que acabou se tornando sua persona mais facilmente reconhecível hoje em dia. E logo em sua primeira cena, aparentemente um despretensioso passeio de bicicleta, a câmera já demonstra a admiração por seu talento, o espectador em questão de minutos já é conquistado por seu carisma, bom-humor e a precisão cirúrgica dos movimentos ao enfrentar um desordeiro, favorecida pela utilização da câmera lenta. A estrutura é similar aos projetos iniciais de Jackie Chan e Sammo Hung, com muito pastelão e uma pegada descompromissada fascinantemente irresponsável, a trama é simplória e convencional, mas o ritmo é ágil, impecável, considero até muito superior a "Drunken Master", filme mais conhecido do diretor. 

sábado, 3 de fevereiro de 2018

Ciclo de Clássicos das Artes Marciais - "Ho, O Sujo" e "Hapkido"


Ho, O Sujo (Lan Tou He - 1976)
Ho (Wong Yue) é um impetuoso ladrão de joias que acredita ser muito esperto. Wang (Gordon Liu) é um príncipe disfarçado que passa seu tempo admirando arte, colecionando antiguidades e degustando vinhos. Quando os dois se encontram, Wang percebe o grande potencial de Ho e arma um plano para que ele tenha que o servir sem revelar sua verdadeira identidade. A trama é um tanto quanto confusa, o segundo ato é problemático, mas as coreografias e as ideias criativas que as envolvem estão entre as melhores já feitas no gênero, como nas tentativas de se disfarçar das pessoas ao redor que os personagens estão trocando sopapos, escondendo seus movimentos com uma surreal atitude passiva. É curioso que muitos cinéfilos valorizem a arte por trás das danças nos musicais, mas tenha preconceito com a arte por trás das lutas dos filmes de artes marciais. A direção só podia ser do mestre Chia-Liang Liu (também conhecido como Lau Kar-Leung), com o refinamento dos estúdios Shaw Brothers, combinação que garante também momentos hilários, politicamente incorretos se analisados hoje, como a sequência da visita dos sete guerreiros efeminados, ou a ameaça pythoniana dos "quatro demônios deficientes físicos". O ponto alto é o confronto final, com Gordon Liu sem poder utilizar uma das pernas, unindo forças com Wong Yue, contra os adversários. 


Hapkido (He Qi Dao - 1972)
Um dos méritos mais louváveis nesta produção da Golden Harvest, dirigida por Feng Huang, é a autenticidade com que exibe o Hapkido, nenhum movimento é embelezado para ficar mais esteticamente interessante para a câmera. Gosto especialmente do filme por ser protagonizado pela taiwanesa Angela Mao, exalando beleza e poder, combinação irresistível que me fez rever com frequência a obra na adolescência. O ponto alto que ainda me empolga, ver a sua personagem, sozinha, destruir uma classe inteira de estudantes, com sua honra intacta, usando como arma improvisada até mesmo o seu penteado, respeitando o código de que sua habilidade somente seria utilizada para defesa, nunca para o ataque gratuito. Sammo Hung, em início de carreira, já demonstra o carisma e a tremenda habilidade que o transformariam, em pouco tempo, em um dos maiores símbolos de competência no gênero, como ator e diretor. É muito interessante a ideia abordada na trama, com o estilo marcial do título sendo a resposta essencialmente elegante dos coreanos contra a opressão da ocupação dos japoneses, que, obviamente, menosprezam esta arte como tecnicamente inferior, ou, como um dos adversários afirma, "uma brincadeira de criança". E, claro, vale destacar a presença do grande mestre Ji Han-jae logo no início, praticamente palestrando sobre o Hapkido, ajudando a elevar o tom de seriedade e credibilidade do filme. 

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Primeira foto oficial do média-metragem "Sacrifício"


Patrick Modenesi em cena do média-metragem de terror psicológico: "Sacrifício". Em breve, revelarei mais informações sobre o projeto. 

Roteiro/Direção: Octavio Caruso. 

Direção de Fotografia: Sihan Felix.

"A Forma da Água", de Guillermo del Toro


A Forma da Água (The Shape of Water - 2017)
As referências no elegante roteiro de Guillermo del Toro e Vanessa Taylor vão de “King Kong”, “O Monstro da Lagoa Negra” e “A Bela e a Fera”, passando pelo relacionamento amoroso nos quadrinhos entre o Monstro do Pântano e Abby, na fase escrita por Alan Moore, até mesmo “Splash – Uma Sereia em Minha Vida”, o cineasta mexicano confirma em seu novo filme todas as qualidades que já demonstrava desde seu início, na pérola vampírica “Cronos”, de 1993.

Não há intenção de confundir o público, a trilha sonora marcante de Alexandre Desplat evoca a todo momento o tom de fábula, coerente melodicamente à doçura que a trama suscita, não há amargura neste conto ambientado na década de cinquenta, diferente de projetos tonalmente similares como “O Labirinto do Fauno”, ou “A Espinha do Diabo”, apenas a pura expressão do amor entre uma criatura marinha capturada e a jovem muda responsável pela limpeza do laboratório. Mas a beleza da mensagem vai além desta rasa compreensão romântica, “A Forma da Água” é um tratado alegórico sobre a importância de verdadeiramente enxergar o outro, buscar a beleza única de cada indivíduo, conceito cada vez mais esquecido em um mundo moderno tão frio e vazio.

É estabelecida já na montagem dos primeiros minutos a rotina desinteressante da personagem vivida brilhantemente por Sally Hawkins, alguém que se acostumou a ser vista como peça defeituosa e dispensável na engrenagem da vida, apenas uma estatística no quadro de funcionários, ela consegue escutar todos os comentários maldosos, mas não tem voz para revidar. As cicatrizes em seu pescoço, memória traumática da dor, razão de seu silêncio. Seus únicos amigos são almas tão perdidas quanto ela, vulneráveis indivíduos à beira da desistência social, a colega negra que vive um casamento de aparência e um artista homossexual frustrado que tem consciência de que a sociedade nunca o aceitará. Os três não se adequam aos padrões, Elisa (Hawkins) não é símbolo de beleza, Zelda (Octavia Spencer) está bastante acima do peso e sofre na pele diariamente a estupidez racista abrasiva na época, Giles (Richard Jenkins) está com dificuldade de aceitar os sinais do tempo em seu rosto. O antagonismo, representado pelo personagem do sádico agente do governo, vivido por Michael Shannon, abraça sem medo a caricatura, ele é o mal encarnado, a sua podridão interna é visualmente trabalhada nos dedos da mão necrosados, não há qualquer sinal de redenção em seu caminho.

Há um elemento de autocelebração do cinema enquanto linguagem que, apesar de se traduzir em uma sequência onírica belíssima em preto e branco, intensamente emocionante, parece não se encaixar organicamente na trama, alguns podem argumentar que foi uma forçada de barra desnecessária para aumentar as chances da obra nas premiações, mas é uma opção que faz sentido na evolução do cineasta, gesto exultante de gratidão, uma encantadora homenagem à fonte criativa em que ele bebeu no início de sua carreira. A inocência da cena contrasta radicalmente com a crueza do mundo em que os personagens habitam, macrocosmo cinza de crescente pessimismo em que se prefere explorar sem escrúpulos, ao invés de desejar aprender com o desconhecido, o medo subjugando o fascínio.

Ao final da obra, toque brilhante, o símbolo da dor será ressignificado, sinal poderoso de esperança, o diretor oferece uma possível resposta para reverter o caos. Com muita inteligência e sensibilidade, o corajoso roteiro se mostra, acima de tudo, assustadoramente atual.