sábado, 16 de julho de 2016

Nos Embalos do Rei do Rock - "Talhado Para Campeão"


Em teoria, uma refilmagem do clássico homônimo da década de trinta, protagonizado por Humphrey Bogart, na prática, com exceção de poucos pontos em comum, a trama foi trabalhada para servir como veículo para o carisma matador do rapaz.


Talhado Para Campeão (Kid Galahad – 1962)
É comum ler que a música de Elvis perdeu qualidade durante os anos dedicados à carreira cinematográfica, uma grande bobagem defendida por aqueles que ignoram o assunto. De 1960 a 1963, apenas três anos, a RCA lançou quatro álbuns maravilhosos: “Elvis is Back”, o gospel “His Hand in Mine”, “Something for Everybody” e “Pot Luck”. Basta uma análise atenta no repertório desses trabalhos pra constatar que não existe músico popular no mercado atual que consiga repetir o feito. Em estúdio, feras como o saxofonista Boots Randolph e o guitarrista Hank Garland, além de Scotty Moore e D.J. Fontana, eram a garantia do reforço elegante que o jovem merecia. Só pra citar alguns títulos impecáveis nascidos dessas sessões: “Fever”, “Are You Lonesome Tonight?”, “Reconsider Baby”, "Gently", “Such a Night”, “Judy”, “Surrender”, “It’s Now or Never”, “(Marie’s the Name) His Latest Flame”, “Little Sister”, “Good Luck Charm”, “Kiss Me Quick”, “She’s Not You”, “Suspicion”, além das duas únicas canções que tiveram o dedo de Elvis na composição: “That’s Someone You'll Never Forget”, pensada para sua falecida mãe, e “You’ll Be Gone”, com uma batida latina. O início das filmagens de “Talhado Para Campeão” marcou o final das sessões para o último dos quatro discos citados.

Vale notar o início da batalha dele com a balança, algo que o deixava incomodado durante as filmagens, mas que os ângulos de câmera ajudaram a amenizar. Ao contrário do que muitos afirmam equivocadamente, a questão do sobrepeso não foi um sintoma da depressão do final de sua vida, ele sempre teve problema com seus hábitos alimentares. Ele vive Walter Gulick, um soldado que retorna para sua cidade natal na procura de um emprego na área de conserto de automóveis, mas que acaba sendo descoberto por um treinador de boxe, vivido por um ainda pouco conhecido Charles Bronson, e seu empresário trambiqueiro, papel entregue para Gig Young, que odiou cada segundo em cena. Casado à época com a “Feiticeira”: Elizabeth Montgomery, o ator percebeu enciumado que a esposa frequentava diariamente os sets e mantinha longos papos animados com Elvis. Em dado momento, no auge da raiva, Gig, provavelmente alcoolizado, chegou a ameaçar bater na mulher, o que levou Elvis a se intrometer fisicamente na discussão. A tensão quase insuportável fez o jovem pensar em desistir do filme. No final da década de setenta, Gig, após receber um prêmio da Academia como Coadjuvante em “A Noite dos Desesperados”, um homem profundamente perturbado, desferiu um tiro na namorada, Kim Schmidt, e logo depois se suicidou em seu apartamento.

A bela Joan Blackman retomou a parceria de “Feitiço Havaiano”, vivendo a irmã caçula do empresário, o que ajudou a construir um clima de cumplicidade perceptível em várias cenas, como quando ela divertidamente desconcerta o cantor ao som de “I Got Lucky”. A trilha sonora, prejudicada pela demanda absurda de composições dos últimos dois anos, possui apenas uma boa música com real apelo comercial: “King of The Whole Wide World”, composta por Bob Roberts e Ruth Bachelor, que espertamente foi inserida nos créditos iniciais. A já citada “I Got Lucky”, “This is Living”, “Riding The Rainbow” e a balada “Home is Where The Heart Is”, são, na melhor das hipóteses, razoavelmente simpáticas. “A Whistling Tune”, cogitada para o filme anterior, foi inserida de maneira desastrada na trama, com direito a um trecho em que ele entoa num passeio romântico: “Uma melodia assobiada para caminhadas noturnas”, em pleno sol do meio-dia. Dá pra ver na sequência o desconforto de Elvis ao tirar leite de pedra. Outro problema do filme é a disposição canhestra das canções na trama, falta o equilíbrio conquistado nas produções seguintes, ponto que chega a incomodar, já que a história interessante é invariavelmente interrompida por situações altamente forçadas. 

A direção de Phil Karlson, responsável pelo competente noir: “Os Quatro Desconhecidos”, de 1952, ajuda a dar credibilidade na subtrama envolvendo a máfia, com direito à tortura com o personagem de Bronson, que tem suas mãos quebradas, um momento brutal que seria impensável nos filmes posteriores de Presley. E, misturando boxe com o karatê que era uma paixão na vida do cantor, até que as lutas no ringue são eficientes, mérito do coreógrafo, o campeão mundial Mushy Callahan, especialmente a que finaliza a obra, no mesmo nível de grande parte das produções que enfocavam o esporte até aquela época. O resultado é irregular, um bom filme com problemas, mas eficiente naquilo que se propõe a entregar. Uma curiosidade que evidencia a personalidade de Elvis, logo no primeiro dia de filmagens, os amigos e membros da equipe prepararam uma cadeira de diretor para o astro onde se lia: “Sr. Presley”. O rapaz ficou sem jeito com a gentileza, disse que não havia necessidade para aquela formalidade, ele recusava tratamento diferenciado. Na manhã seguinte, ao chegar ao set, uma nova cadeira o estava esperando, com os dizeres: “O bom e velho Elvis”. A gargalhada geral ditou o clima do dia.

Quando “Feitiço Havaiano” estreou nos cinemas, “Em Cada Sonho Um Amor” e “Talhado Para Campeão” já haviam sido filmados. O fracasso de “Coração Rebelde” e “Estrela de Fogo”, as duas produções mais sérias, aliado ao sucesso impressionante da divertida aventura no solo havaiano, serviu como argumento suficiente para que o Coronel Parker tirasse de vez da cabeça de Elvis o sonho de ser reconhecido como ator dramático. A mudança de estratégia comercial foi imediata, o que prejudicou até a divulgação das duas produções da Mirisch, que marcariam os últimos flertes do rei do rock com tramas minimamente ousadas, pelo menos até o redentor final da década, que trouxe “Joe é Muito Vivo”, “Viva Um Pouquinho, Ame Um Pouquinho”, “Charro”, “Lindas Encrencas: as Garotas” e “Ele e as Três Noviças”. O irregular período de 1962-1967, época dominada pela fórmula lucrativa: muitas canções e pouca história, não representa o conjunto de obra de Elvis no cinema, mas é o período que os detratores sempre utilizam como argumento pra desvalorizar os esforços do artista. Mas até mesmo nessas produções podemos encontrar méritos interessantes, como irei revelar nos próximos textos do especial.

A Seguir: “Garotas, Garotas e Mais Garotas” (Girls! Girls! Girls!)

quinta-feira, 14 de julho de 2016

"Uma Lição de Amor", de Ingmar Bergman


Uma Lição de Amor (En Lektion i Kärlek – 1954)
Depois de quinze anos de casamento, David e Marianne estão se separando. Numa viagem para Copenhagen, David pega o mesmo trem que Marianne, fazendo com que pareça coincidência. Passando este tempo juntos, eles relembram momentos, refletem sobre o passado e o futuro e podem caminhar para uma reconciliação.


Passando por um momento complicado, após a fraca bilheteria de seu projeto anterior: “Noites de Circo”, Bergman viu a necessidade de, com pouco orçamento, filmar algo popular, mais leve, que tivesse real possibilidade de agradar o público. Ele sempre deixou bem claro que a única razão que o levava a dirigir comédias era o fator financeiro. Eu gosto bastante dessas fugas da zona de conforto em sua filmografia, especialmente “O Olho do Diabo”, “A Flauta Mágica” e “Uma Lição de Amor”, onde ele se aproxima bastante do estilo norte-americano, com a dupla Eva Dahlbeck e Gunnar Björnstrand emulando Katharine Hepburn e Cary Grant, com cenas curiosas de humor pastelão, mas executadas com a elegância irônica de Ernst Lubitsch. 

É possível enxergar no filme várias sementes que germinariam em produções futuras. A reunião da família em flashback, com essas memórias movimentando a engrenagem emocional do protagonista, foi um conceito expandido em “Morangos Silvestres”. Até mesmo o embrião de “Através de Um Espelho” pode ser encontrado na sequência em flashback do pai conversando com a filha adolescente, vivida por Harriet Andersson, revelando para ela que até mesmo a relação dos dois, outrora tão cálida, já não afugenta o frio existencial em sua vida, afirmação que magoa profundamente a menina. Exatamente por Bergman ter um terreno inexplorado à frente, ele ficou motivado a correr mais riscos, ocasionando em pouco convencionais ângulos de câmera, uma espécie de irresponsabilidade técnica que acabou se provando altamente criativa. Um elemento interessante na trama é a personagem da adolescente, Nix, que não se sente confortável no corpo de uma mulher. Ainda que o tema não seja plenamente trabalhado, ganha pontos pela ousadia na abordagem direta para a época.

"O leito conjugal é a morte do amor", como inteligentemente afirma o protagonista, o ritual contratual do casamento aniquilando a naturalidade libertária do mais belo sentimento. O casal, já separado, refaz seu relacionamento desgastado em uma única viagem de trem como solteiros. Uma joia subestimada no conjunto de obra do cineasta, o tipo de filme que você pode mostrar sem medo para alguém que diz não gostar do estilo dele.

"Esse Obscuro Objeto do Desejo", de Luis Buñuel


Esse Obscuro Objeto do Desejo (Cet obscur objet du désir – 1977)

“Não podemos interpretar os signos de um ser amado sem desembocar em mundos que se formam sem nós, que se formaram com outras pessoas, onde não somos, de início, senão um objeto como os outros”. (Gilles Deleuze)

“Se você tiver o que deseja, deixará de me amar”. (Conchita)

O livro “La femme et le pantin”, de Pierre Louÿs, já havia sido adaptado para o cinema em “Mulher Satânica”, de Josef von Sternberg, e “A Mulher e o Fantoche”, de Julien Duvivier, mas somente pelas mãos de Luis Buñuel e Jean-Claude Carrière conseguiu ser plenamente compreendido, indo além da história simplória da mulher que pisoteia os sentimentos de seu admirador até receber o troco na mesma moeda. “Esse Obscuro Objeto do Desejo” amplia essa superficial camada interpretativa para uma reflexão profunda sobre questões fundamentais na obra do espanhol, como a religião e as obsessões que escravizam o ser humano a padrões encorajados por rituais tolos e ideologicamente frágeis, em suma, ele aponta o dedo para o fato de que somos seres desprovidos de liberdade e parecemos gostar/precisar dessa condição. 

Ao optar por utilizar duas atrizes no papel de Conchita, esse toque surrealista brilhante, o filme perturba sensorialmente o espectador, conscientemente trabalhando contra o elemento importante da identificação e do investimento emocional na relação do casal. O personagem de Fernando Rey está apaixonado por aquela jovem, mas o roteiro não está interessado em fazer com que o público compartilhe esse sentimento, o que conduziria à empatia imediata, mas, sim, que ele analise o comportamento de Mathieu como se ele fosse um animal exótico em um zoológico. Com a utilização dos dois rostos, Carole Bouquet e Ángela Molina, sem obedecer a qualquer impulso de racionalidade, a trama bloqueia a empatia e facilita a objetificação da mulher, alem de tornar mais perceptíveis os traços de personalidade antagônicos que compõem a complexa natureza humana. Bouquet, fria, beleza etérea, Molina, calor, paixão representada pela sensualidade da dança flamenca. Conchita se recusa a satisfazer os desejos sexuais de seu admirador, parece se divertir gradativamente elevando o grau de intimidade entre os dois. 

De início, conduzidos pela mão dele em sua narrativa a bordo do trem, ignorando os acontecimentos passados, chocados pelo balde d’água que ele despeja na mulher, somos levados a ver ele como uma vítima, todos os elementos nos flashbacks, inclusive os personagens secundários, são ativados pelo ponto de vista de alguém que se coloca como pobre coitado. Ao final, os argumentos não são suficientes para que continuemos vendo a história de forma tão unidimensional, não há vítimas, apenas dois adultos psicologicamente infantilizados, reduzidos aos seus instintos mais primitivos, desajeitadamente buscando entender suas próprias necessidades. Perceba como tudo se resume a infantis baldes d’água como forma de ataque e revide, complementados até por um breve momento em que a jovem encurralada no trem estira a língua como zombeteira resposta. Ele tenta comprar a entrega sexual dela de todas as formas, enquanto a jovem se utiliza dessa generosidade desesperada para conseguir melhorar financeiramente de vida. 

Buñuel insere durante toda a projeção reportagens radiofônicas e televisivas sobre atentados terroristas cometidos pelo “exército revolucionário do bebê Jesus”, propondo uma analogia entre a violência política (provocação por desejo de conquistar e manter o poder) e sexual (o ritual cristão da virgindade até o casamento como violenta agressão antinatural alicerçada pelo medo), optando inteligentemente por encerrar com uma explosão de bomba que bloqueia nossa visão do casal. Fomos atingidos. 

* O filme está sendo lançado em DVD pela distribuidora "Classicline".

terça-feira, 12 de julho de 2016

"Os Caça-Fantasmas", de Ivan Reitman


Os Caça-Fantasmas (Ghostbusters – 1984)
A refilmagem que estreia nessa semana estimula mais uma vez o debate sobre a relevância desse tipo de produção, ainda mais quando o elenco feminino é formado por versões nada criativas dos protagonistas do original. Ao invés de perder tempo com o conjunto de equívocos que está sendo, de forma justa, destruído pela crítica e pelo público, prefiro direcionar minha atenção para o roteiro espetacular de Dan Aykroyd e do saudoso Harold Ramis, dirigido com muita competência por Ivan Reitman. Vale ressaltar que nutro carinho especial pela versão brasileira, dublada pelo estúdio BKS, um trabalho impecável de Ézio Ramos (Bill Murray), Flávio Dias (Aykroyd), Jorge Barcellos (Ramis) e Antônio Moreno (Ernie Hudson).

O filme era ousado, misturava comédia e terror, com cenas que ultrapassavam o limite do que era normalmente oferecido como entretenimento infantil, por exemplo, o sonho erótico de Ray, ou o momento em que a musa dos nerds da época, Sigourney Weaver, está sentada na poltrona de sua casa e é atacada por garras bestiais, uma bolinação com toques discretos de sensualidade, que encaminham a personagem para sua possessão demoníaca, com destaque para longas pernas à mostra em um vestido bastante provocante. As aparições fantasmagóricas, com exceção do esverdeado Geleia, que é essencialmente caricatural, bebem da fonte dos filmes de horror, como os cães demoníacos guardiões de Gozer e, logo no início, a senhora da biblioteca que parece saída diretamente do “Poltergeist” de Tobe Hooper. Os efeitos especiais continuam eficientes porque o estofo, o roteiro, segue esperto como em sua época. Os diálogos inteligentes são tão bons que parecem improvisados, tamanha a naturalidade com que brotam nas situações mais absurdas. O espectador se afeiçoa rapidamente a cada personagem. São imperfeitos, trambiqueiros, desajeitados, mulherengos, gananciosos, mas, acima de tudo, adoráveis.

A montagem que insere o grupo na cultura popular, virando capa de revistas e jornais, sendo entrevistados e debatidos por especialistas, consumidos generosamente pela máquina da propaganda, representa um importante viés crítico de como a sociedade deturpada parece estar conscientemente criando um espetáculo surrealista como forma de suprir material sensacionalista para alimentar a própria máquina. Perceba como, na sequência emoldurada pela canção “Savin’ the Day”, mostrando o exército se aproximando do prédio para dar o reforço na batalha final, mais parece uma parada festiva, com a população aplaudindo a passagem dos carros. Impagável a expressão no rosto de Bill Murray, saindo do automóvel para interagir com o povo, sorriso irônico ao dizer para o colega que ele é amado pelos populares, como pugilistas entrando em um ringue. Tem como ser mais ousado que inserir um grupo de rabinos ovacionando caçadores de fantasmas? Os Caça-Fantasmas dão autógrafos, tiram fotos com os fãs, exibem com sorriso largo mais um fantasma capturado na armadilha, mas também são mostrados elevando propositalmente o nível de destruição em uma caçada, para que o pagamento seja mais interessante. Eles não são heróis, não são politicamente corretos, são malandros. O galanteador Venkman só aceita cuidar do caso da Dana por achar que vai conseguir levar ela pra cama. Winston chega pra entrevista de seleção para o cargo disposto a acreditar em qualquer baboseira relacionada ao sobrenatural, como ele mesmo afirma descaradamente para a desinteressada secretária, contanto que o pagamento seja interessante. 

Por mais que o sucesso do projeto tenha viabilizado uma sequência infantilizada e uma franquia de animações, quadrinhos e brinquedos, mídias em que o heroísmo obviamente ganhou destaque, o filme original foi pensado como humor adulto ácido e crítico. 

segunda-feira, 11 de julho de 2016

"American Graffiti", de George Lucas (Entrevista com Roger, da banda "Ultraje a Rigor")


O amigo Roger, grande admirador do clássico "American Graffiti", em uma entrevista exclusiva para o "Devo Tudo ao Cinema", aborda o impacto da obra em sua vida.

Entrevista com Roger Rocha Moreira, da banda "Ultraje a Rigor":

O - Roger, você consegue recordar a experiência de ver American Graffiti pela primeira vez? Como foi? E nessa primeira sessão, quais aspectos do filme te cativaram com mais intensidade?

R - Não, não consigo. Eu gostei de tudo. Tenho certa fantasia de viver naquele tempo e naquele país. E as músicas, sensacionais!

O - É uma pena que o sucesso avassalador de Star Wars tenha eclipsado essa pequena joia na carreira do George Lucas. Se, por um lado, fez com que o rapaz não se preocupasse mais com orçamento em seus projetos, por outro, trouxe o elemento do medo de arriscar criativamente. Correr riscos é essencial para um cineasta. Você acredita que o sucesso prejudicou criativamente o Lucas mais ousado de THX 1138 e American Graffiti? E, complementando, num exercício hipotético de fã, excluindo a saga espacial da equação, que tipo de filmes você acha que ele estaria realizando hoje?

R - Não creio que o sucesso o tenha prejudicado. Talvez a preguiça. A própria saga foi perdendo força como história. Acho que hoje ele ainda estaria contando histórias parecidas.

O - "Grease" mostra o mesmo período de maneira estereotipada, com tintas fortes, já American Graffiti é uma perfeita máquina do tempo, fazendo você realmente se sentir parte daquele grupo de jovens numa única madrugada insana. A ideia divertida de inserir no desfecho cartelas com o destino dos personagens fictícios facilita ainda mais essa abordagem "pé no chão". Você se identificou com algum personagem na obra? Qual (e a razão)? Tem alguma história engraçada/curiosa, envolvendo o filme?

R - Bom, Grease é um musical. Não me identifiquei com nenhum em especial, mas Curt como fio condutor da história, como observador mais adulto, percebendo que estava dando um adeus à adolescência, foi o que mais me prendeu. Eu tive uma banda paralela em 2004 com 12 integrantes e que incluiu em seu repertório muitas das músicas da trilha sonora do filme. Chamava-se “A fabulosa orquestra de rock and roll”. (https://www.youtube.com/watch?v=Ypm79WgeyhE) (http://deckdisc.com.br/a-fabulosa-orquestra-de-rock-n-roll/)

O - Como um dos roqueiros mais importantes do cenário musical nacional, tenho certeza que o elemento da trilha sonora, repleta de clássicos de rock, doo-wop, até um gospel ("Crying in the Chapel"), do final dos anos cinquenta e início dos anos sessenta, foi um dos fatores essenciais para o filme ser tão marcante em sua vida. Como você analisa esse aspecto no filme?

R - Sem dúvida, a trilha é deliciosa! Toco muitas delas até hoje. E ouço sempre!

O - Gosto demais daquele breve momento no final, quando o personagem do Richard Dreyfuss, já no avião, enxerga ao longe o carro de sua paixão platônica, o símbolo da vida que ele poderia ter caso ficasse em sua cidade. Quais as suas cenas favoritas no filme (e as razões)?

R - Gosto do trote que eles dão na polícia, com a corrente no eixo de rodas. Pela aventura, pela ideia, pela superação por que Curt tem que passar. Um rito de passagem. Gosto do "cruising" na avenida, gosto dos Hot Rods, gosto de quando Curt encontra Wolfman Jack. É um puta filme, cheio de metáforas e com uma trilha sonora sensacional.


Loucuras de Verão (American Graffiti – 1973)
Vi o filme pela primeira vez em uma sessão televisiva de madrugada no final da década de noventa. Como eu tinha aula na manhã seguinte, coloquei o aparelho VHS pra gravar, mas não resisti, vi do início ao fim, fui dormir por volta das quatro da manhã, acabei perdendo a hora e acordei por volta do meio-dia. Penso que não foi um erro, já que hoje em dia não me recordo de quase nada que tenha vivido de bom naquela época escolar, mas “Loucuras de Verão” segue firme com ternura em minha memória afetiva. O que me encantou principalmente foi que a trama se passava durante uma única madrugada, agregando às aventuras daquela garotada a aura mágica da noite, o símbolo do desconhecido a ser desbravado pelas crianças. Um dos mistérios da infância: atravessar acordado uma madrugada e enfrentar a autoridade dos pais. O roteirista/diretor George Lucas reúne um pequeno grupo de adolescentes que está disposto a aproveitar a última noite antes de partirem para a faculdade, abraçando assim a maturidade, um último grito de liberdade antes de aceitarem o desconfortável nó da gravata do universo adulto. A história se passa no início da década de sessenta, mas o jovem de hoje pode se identificar plenamente com a angústia de Curt, vivido por Richard Dreyfuss, ou com a insegurança do nerd que busca aceitação dirigindo o carro do amigo descolado. 

A bela loira misteriosa do Ford T-Bird 56, vivida por Suzanne Somers, representa as múltiplas possibilidades futuras na zona de conforto desses jovens, o acolhimento familiar e a cidade do interior que eles conseguiriam atravessar de olhos fechados. Ao se apaixonar platonicamente por ela, enxergando em seus lábios silenciosos no carro ao lado uma declaração de amor sussurrada, Curt, o que parece ser o mais sensível e equilibrado do grupo, entra em conflito existencial. A metáfora é eficiente, o encontro breve se dá em um sinal fechado na rua, o mundo que se abre à frente dos carros é um terreno de total imprevisibilidade. Desistir da loira é aceitar a nova vida na cidade grande, a faculdade, a realização dos sonhos dos pais, estabilidade financeira e responsabilidades adultas. Curt luta pra reencontrar a garota durante a madrugada, mas apenas ao raiar do dia, ao som de “Only You”, do grupo The Platters, com a ajuda imprescindível do radialista, ele consegue falar rapidamente com ela ao telefone. Vale ressaltar o brilhantismo da sequência anterior, onde o adolescente começa inconscientemente a conhecer a realidade brutal da maturidade ao visitar a estação de rádio, descobrindo a ilusão por trás da figura cultuada de Wolfman Jack, vivida pelo próprio, uma simples voz gravada. A perda da inocência, seguida pelo sorriso irônico ao desligar o telefone sabendo que continuará ignorando o nome da garota, o encaminhamento perfeito para a despedida dos pais antes da partida do avião. A beleza do desfecho ainda me emociona de maneira muito especial, o olhar plácido de Curt admirando a paisagem pela janela do avião, até que ele percebe ao longe, na estrada abaixo, o Ford T-Bird 56 deslizando pelo asfalto. Ele não se perturba e segue admirando o horizonte, simplesmente aceitando que o período mais divertido de sua vida ficou pra trás. Um Peter Pan que desistiu da Terra do Nunca, preparado para vivenciar novas aventuras, o rapaz cresceu.

O filme foi copiado na década seguinte por várias produções de comédia sexual adolescente, mas nenhuma captou a profundidade da mensagem idealizada por George Lucas, um resgate nostálgico de sua adolescência ao som do rockabilly na cidade de interior.