quinta-feira, 16 de junho de 2016

Faces do Medo - "Invocação do Mal 2", de James Wan


Invocação do Mal 2 (The Conjuring 2 - 2016)
O primeiro filme entrou em minha lista dos dez melhores em seu ano, considero James Wan um dos melhores diretores de sua geração, um talento que consegue trabalhar de forma autoral com os gêneros, mas alimentado por um respeito profundo pelo passado. Não há nada de novo, além de uma abordagem empolgada de alguém que verdadeiramente compreende as engrenagens do estilo, uma técnica pulsante que utiliza generosamente os ângulos inclinados como forma de realçar o desconforto no espectador, abraçada por um senso de ritmo invejável.

Em uma indústria que despeja obras de péssima qualidade, “Invocação do Mal 2” dá ao público moderno um gostinho de como era viver a época de ouro do cinema de terror pensado para adultos. É uma experiência rara ser conduzido por um artesão inteligente que utiliza de vários recursos sensoriais, com o impecável reforço da trilha sonora de Joseph Bishara, para te fazer investir emocionalmente em um roteiro baseado em uma história real altamente questionável. A faixa “As Close as Hell”, com o coral perturbador em gradativo desespero sônico, já define logo de início a atitude séria com que trata o tema, o grande diferencial de um bom horror. Os sustos são frequentes, mas o mérito maior está na construção de clima. O caso das irmãs Hodgson, ocorrido na década de setenta, fascina especialmente por ter sido registrado em vídeo, com a pequena Janet alternando em uma entrevista a sua voz infantil com trechos onde ela se torna rouca e intensamente grave. É um prato cheio que Wan potencializa com esmero ao reencenar o evento. O lar destroçado é fotografado em tons esmaecidos, salientando a pobreza da família e insinuando, num toque corajoso, razões psicológicas que possibilitariam o extravasamento emocional teatralizado por necessidade de atenção.

O que facilita a imersão no projeto, além da ótima recriação de época, é a vulnerabilidade de Lorraine, vivida por Vera Farmiga, vítima de sua específica sensibilidade. O foco maior dado ao relacionamento do casal de investigadores parapsíquicos, evidenciando em sequências tomadas de ternura o senso de proteção inabalável de um com o outro, nunca resvalando no piegas, engrandece a trama para algo mais do que uma excelente profusão de cenas apavorantes bem executadas. Seria muito fácil para a produção se debruçar na fórmula matadora do anterior, mas o roteiro aceita correr riscos, tentando estabelecer novos totens narrativos nas figuras do “homem torto” e da freira diabólica, substituindo a boneca Annabelle. Se a utilização excessiva de computação gráfica no "homem torto" prejudica o todo, a grande sacada de inserir como leitmotiv a canção símbolo de Elvis Presley: "Can't Help Falling in Love", com função similar à "Edelweiss" no desfecho de "A Noviça Rebelde", a união familiar como salvação para uma situação aparentemente inescapável, redime qualquer falha. 


* A editora "Darkside Books" está lançando "Exorcismo", do jornalista Thomas B. Allen, obra que explora de forma investigativa os acontecimentos que inspiraram o escritor William Peter Blatty a escrever o clássico: "O Exorcista". Nas palavras de Ed e Lorraine Warren: "Um documento fascinante e imparcial sobre a luta diária entre o bem e o mal".

segunda-feira, 13 de junho de 2016

"A Pantera Cor-de-Rosa", de Blake Edwards

Texto sobre “Um Tiro no Escuro”:
Texto sobre “Um Convidado Bem Trapalhão”:


A Pantera Cor-de-Rosa (The Pink Panther – 1963)
O hilariante Inspetor Clouseau, da polícia de Paris, precisa encontrar um ladrão de joias que está mais perto do que ele imagina: o perigoso assaltante é amante de sua esposa, sem que ele nada perceba.

A minha memória afetiva me diz que tive contato com esse filme na infância, numa exibição vespertina na televisão, mas eu realmente me apaixonei pela franquia na adolescência, acompanhando um especial sobre Peter Sellers no canal Telecine, que exibiu diariamente no horário nobre esses clássicos e algumas pérolas pouco conhecidas, como “O Mundo de Henry Orient”. Como de costume, gravei tudo em VHS e ficava revendo as fitas com frequência. Sendo bem sincero, acho que durante um bom tempo eu tive um encontro marcado com o filme todas as tardes, após a escola. Como resistir? Tinha a classuda modelo Capucine, a belíssima Fran Jeffries cantando e dançando sensualmente “Meglio Stasera”, tinha também a Claudia Cardinale, uma das minhas musas na época, além daquela aura especial de charme e elegância que sempre considerei terapêutica, o tipo de obra que se vê com um sorriso permanente no rosto. E antes de me apaixonar pelos filmes, eu já era apaixonado pela trilha sonora de Henry Mancini, que minha mãe escutava em casa, normalmente lembrada apenas pelo tema principal, o que é uma injustiça, o disco todo é impecável. Faixas como “Royal Blue”, “Something for Sellers”, “The Lonely Princess”, “Cortina” e “Piano and Strings” estão entre as melhores composições da carreira do maestro.

O diretor/roteirista Blake Edwards foi apaixonado em sua infância pelas comédias mudas, especialmente por Stan Laurel e Oliver Hardy, uma influência que é perceptível em diversos momentos, como nas gags que ocorrem durante a festa à fantasia, no terceiro ato. Mas uma das cenas mais celebradas pelo público, aquela em que um homem tenta com muita dificuldade atravessar uma rua, foi uma homenagem do diretor a um momento similar no clássico de Hitchcock: “Correspondente Estrangeiro”. Analisando como as continuações aprimoraram a caracterização do inspetor vivido por Sellers, acho fascinante poder visualizar o processo de criação desse gênio. Nesse primeiro, ele fala com sotaque francês, mas não brinca com as palavras. Clouseau foi pensado inicialmente como uma simples curiosidade, um coadjuvante simpático que parodiava o detetive Hercule Poirot, de Agatha Christie. O protagonista era David Niven, como o audacioso ladrão de joias. O caso é que Sellers foi tão brilhante no set de filmagem, que o roteiro ia sendo expandido, abraçando grande parte dos improvisos que ele sugeria, como a cena em que ele derrama leite no corredor. Desde a sua apresentação, escorregando ao girar o globo em seu escritório, ele conquista o carinho do espectador com seu misto de ternura e patetice. O que cativa não é o aspecto pastelão de seus atos, mas a obstinação dele em recusar acusar o erro. Ele se recupera rapidamente das piores gafes, como se nada tivesse acontecido. Com essa criação bastante original, Sellers, que não era a primeira escolha para o personagem, papel que seria de Peter Ustinov, eclipsou todo o elenco e, indo contra as expectativas do próprio diretor, que à época via o projeto como obra única, garantiu o protagonismo em quatro continuações.

A câmera de Blake, assim como nos trabalhos de Ernst Lubitsch, permite que os atores se movam mais nas cenas do que a câmera, como exemplo: a sequência em que a esposa do inspetor se divide entre três amantes em seu quarto, uma coreografia que pode ser tida como lenta pelo público moderno, acostumado com uma edição frenética que disfarça a fraqueza do material trabalhado. O humor prima pela qualidade, mais do que pela quantidade. A situação vai sendo levada num crescendo de pequenos e hilários desastres, culminando em resoluções nada óbvias. No desfecho, manipulado a ser incriminado injustamente como o notório ladrão, Clouseau aceita com alegria essa nova vida cheia de aventura, muito mais interessante que a sua rotina como oficial da lei. Ainda que esse elemento não tenha sido utilizado no filme seguinte, acho uma reviravolta tão boa quanto aquela que ocorre no famoso encerramento de “Quanto Mais Quente Melhor”, de Billy Wilder. 

domingo, 12 de junho de 2016

Conseguirei listar minhas quinze maiores influências literárias?


É comum nas redes sociais a corrente de desafios, sobre os mais variados temas. Sempre fui péssimo nisso, não sou afeito a trivialidades, especialmente quando estão relacionadas às grandes paixões da minha vida: cinema e literatura. Se eu for listar dez livros que marcaram minha vida, preciso escrever as razões das escolhas, não consigo ser direto e breve nesse tipo de questionamento, não consigo abordar esses temas como se fossem superficialidades, em suma, eu levo com muita seriedade a brincadeira. A última vez que tentei, com um desafio que considerei mais criativo que o usual, eu demorei quase uma hora pra fechar o texto. Como ninguém na imediatista rede social vai se interessar em ler uma postagem gigantesca de vários parágrafos, eu prefiro ignorar sempre que me convidam para algo desse tipo. Hoje fui marcado em um desafio para citar minhas quinze maiores influências literárias, listar quinze autores. Que maldade! É como perguntar para um hipocondríaco se ele está se sentindo saudável, todo o corpo começa a ferver, as mãos tremem acima do teclado, a memória afetiva começa a berrar. Então, consciente de que ficarei uma longa madrugada preparando esse texto que você lê nesse momento, tentarei responder ao desafio com a dedicação que o questionamento merece. 

Começo já frustrando você, “pela ordem”, solicitando uma revisão sobre a regra principal do desafio, a impossibilidade de reduzir a apenas quinze nomes praticamente três décadas de profundo amor pela leitura. E as revistas em quadrinhos, nona arte, podem ser incluídas nessa lista? Outro problema: existem livros excelentes e que foram importantes em minha vida, de autores inconstantes, que não entrariam em uma lista de trinta escritores favoritos. Quando o livro é uma influência, até por ajuda de elementos emocionais externos, mas o autor, em seu conjunto de obra, não é um favorito meu, como faço? E, vamos aprofundar a celeuma, essa subjetiva influência literária deve ser em qual sentido? Autores que me influenciaram de forma prática em meu trabalho como escritor, ou autores que me influenciaram de uma maneira mais existencialista, como indivíduo pensante na sociedade? Se eu for incluir os dois tipos, asseguro que será impossível manter a regra de ínfimos quinze nomes. Tomando a liberdade de analisar mais um ponto importante, qual o objetivo da lista? É servir como indicação para possíveis interessados? Se for o caso, vejo mais um problema, alguns autores que me influenciaram tremendamente, nomes até obscuros, eu não consideraria indicar para quem está buscando de forma passional a literatura, eu estaria fazendo um desserviço. Por exemplo, o cineasta húngaro Béla Tarr, fantástico, mas eu não indicaria as quase oito horas de “Satantango” para um cinéfilo iniciante, pra não correr o risco dele ficar traumatizado para o resto da vida, fugindo da sala escura como o diabo foge da cruz. Eu indicaria Frank Capra, Preston Sturges ou Billy Wilder. A lista não é uma indicação? Então qual a função dela? Será que é uma forma da pessoa, que passa o dia inteiro dando atenção para tolices nas redes sociais, fingir pros outros que é alguém que valoriza cultura? Apesar de saber que no Brasil prevalece o interesse em “parecer ser”, em detrimento do precioso “ser”, eu prefiro acreditar que a intenção é indicar bons livros e compartilhar a paixão em comum. 

Quinze autores, vamos lá, vou tentar pensar o menos possível, agir como em um teste de Rorschach, popularmente conhecido como o teste psicológico com borrão de tinta. Regredindo até minha infância, Alan Moore, nunca vou esquecer o impacto de histórias como “Para o Homem Que Tinha Tudo”, ou me esquecer de quando li pela primeira vez uma trama sobre viagem no tempo, um dos meus primeiros livros de adulto, “Operação Cavalo de Tróia”, do jornalista espanhol J.J. Benítez. A magia da obra infantil de Monteiro Lobato, que até hoje me leva às lágrimas quando releio. O encantador clima nostálgico de “Os Meninos da Rua Paulo”, de Ferenc Molnár. As aventuras escritas por Marcos Rey, que eu lia na coleção “Vaga-Lume”. Talvez o livro mais importante na minha vida, “O Conde de Monte Cristo”, de Alexandre Dumas (pai), obra que me motivou a seguir sonhando quando o bullying escolar estava em seu auge. Ah, como eu tentava sempre ser mais esperto que Hercule Poirot e Sherlock Holmes, buscando decifrar os mistérios antes do desfecho, não posso me esquecer de inserir Agatha Christie e Arthur Conan Doyle. Em meu período exploratório sobrenatural na pré-adolescência, devorei tudo que encontrava de Neil Gaiman, Edgar Allan Poe, H.P. Lovecraft e Stephen King. Já temendo o aproximar do ingrato limite numérico, forço a mente a atravessar um buraco de minhoca no espaço-tempo, chegando à minha adolescência. Quantas vezes eu reli “O Exorcista”, de William Peter Blatty, ou “A Volta do Parafuso”, de Henry James? Como apaixonado por cinema, não posso me esquecer de incluir também Woody Allen, cujos livros “Sem Plumas”, “Que Loucura!” e “Cuca Fundida”, durante muitos anos, foram minha santíssima trindade na literatura de humor. Não posso esquecer o impacto desses autores naquele momento da minha vida: Friedrich Nietzsche, Carl Sagan (“O Mundo Assombrado pelos Demônios – A Ciência Vista Como Uma Vela no Escuro” foi um divisor de águas em minha adolescência), Marcel Proust, Franz Kafka, Albert Camus e Fiódor Dostoiévski. Sei que já ultrapassei o limite de quinze nomes, eu deveria parar, mas como não incluir George Orwell e Aldous Huxley? E a emoção que senti ao terminar de ler “Fahrenheit 451”, de Ray Bradbury? É imprescindível que eu inclua Isaac Asimov, a “Trilogia da Fundação” foi meu livro sagrado durante muitos anos. A literatura de ficção científica foi minha formação, assim como a literatura de terror, então como deixar de fora “Duna”, de Frank Herbert, Anthony Burgess, Arthur C. Clarke e, principalmente, “O Homem do Castelo Alto”, de Philip K. Dick? Na época em que comecei a fazer teatro, devorei tudo o que ainda não havia lido de William Shakespeare, Ariano Suassuna e Tennessee Williams. Não, sendo honesto, eu não conseguiria ficar em paz com minha consciência se deixasse de citar a importância em minha vida de “Cem Anos de Solidão”, de Gabriel García Márquez, ou as madrugadas instigantes acompanhado de “Ensaio Sobre a Cegueira”, de José Saramago. “O Velho e o Mar”, de Ernest Hemingway, foi um dos raros livros que li inteiro duas vezes no mesmo dia. E a brutal intensidade a cada página de “Ulisses”, de James Joyce? Eu já citei J.R.R. Tolkien? Nunca esquecerei a profunda emoção que senti lendo a trilogia “O Senhor dos Anéis”, anos antes dela ser descoberta pelo grande público com as adaptações cinematográficas. Você já leu “Lavoura Arcaica”, de Raduan Nassar? Considero um dos melhores livros nacionais de todos os tempos. E, já que citei esse, preciso incluir Machado de Assis, que felizmente conheci fora das carteiras escolares, ficando encantado com o humor de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”. Espera um segundo, eu citei Nikos Kazantzákis, F. Scott Fitzgerald e Ayn Rand? Atualmente estou conhecendo melhor a obra fascinante de Bernard Cornwell, que já me cativou anos atrás com a trilogia “As Crônicas de Artur”. Sendo praticamente obrigado pelo inexorável tempo a fechar esse texto, percebo que cheguei a quarenta e três nomes. E já estou me sentindo culpado pelos outros tantos que estavam se esgoelando em minha mente por atenção, como Miguel de Cervantes, Nelson Rodrigues, Harper Lee, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Truman Capote, Marguerite Duras, Carlos Drummond de Andrade, Graciliano Ramos, Umberto Eco, Mark Twain, Júlio Verne, Pablo Neruda, Camilo Castelo Branco… 

Em resumo, com o perdão da sinceridade, somente aquele que pouca atenção dedicou à literatura em sua vida será capaz de citar superficialmente apenas quinze nomes, sem preocupação com a contextualização. E, principalmente, sem sentir o remorso por deixar tantos outros nomes de fora. Eu, por outro lado, sigo mantendo minha média de leitura de cinco a sete livros ao mesmo tempo, com uma longa lista de espera, ainda com a esperança de viver muito para ter chance de desbravar mares que ainda desconheço nessa maravilhosa arte.

sexta-feira, 10 de junho de 2016

"Interestelar", de Christopher Nolan


* Resgato aqui a crítica postada na semana de estreia do filme, com a adição de alguns trechos com spoilers.

Interestelar (Interstellar - 2014)
É curioso analisar a reação do público, dividido entre dois extremos, aqueles que celebram o projeto de Christopher Nolan como um sucessor do épico “2001” de Kubrick, tão radicais quanto aqueles que não enxergam qualidade alguma em seu ambicioso esforço. A ambição, por si só, já valeria como mérito, com o diretor provando mais uma vez que é possível unir o cinemão mainstream, com seu calculado entretenimento industrializado, a uma dose generosa de ousadia temática e de execução, tão comuns no cinema independente. O aspecto visual é impressionante, o design do buraco negro, a execução da cena ambientada no hipercubo, um refinamento à altura das questões levantadas no roteiro.

Os primeiros quarenta minutos são intensamente problemáticos, com excesso de diálogos expositivos, defendidos por personagens que agem de forma unidimensional. Alguns, como o vivido por John Lithgow, atravessando a tênue linha da caricatura. Na cena em que o pai, o astronauta fazendeiro interpretado por Matthew McConaughey, avisa sua filha sobre a natureza de sua missão, a trilha sonora de Hans Zimmer se torna insuportavelmente melodramática, tentando extrair a fórceps a catarse de uma relação familiar cujo investimento emocional se resume a longos diálogos técnicos, uma conexão que só existe em teoria, nas páginas do roteiro. Essa cena se estende por mais tempo do que devia, mas como o sentimento proposto agressivamente pela trilha e pelas atuações não soa orgânico, o desespero da menina se torna inverossímil, lágrimas de piloto automático, com o roteiro repetindo os clichês das inúmeras despedidas entre pais e filhos no cinema. Fica clara a ansiedade do diretor em chegar ao ponto que estimulou sua gênese, com o início da missão espacial. Após tanto falatório, fiquei até aliviado quando a câmera se estendeu na paisagem silenciosa do espaço. O segundo ato flui de forma muito mais eficiente.

É interessante a forma como a teoria da relatividade de Einstein é utilizada como recurso dramático, mas quando a trama força um discurso quase piegas, o que ocorre com frequência, inserindo o conceito do amor na equação, fica aparente o desconforto do diretor em se afastar do aspecto mais nerd da obra, as análises científicas e existenciais que ele propõe. Fica parecendo gordura extra, com a quantidade imensa de informações que os personagens metralham, eventuais quebras de ritmo onde, sem exagero, ficamos assistindo tiras de cartolina, sem nenhum aprofundamento ou motivação verossímil, divagando de forma romântica e poética sobre questões que parecem enxertadas somente para agradar o público feminino que aprecia as formulaicas comédias românticas, o que explica os dispensáveis últimos dez minutos. A necessidade de abraçar vários temas bastante distintos, em três longas horas de duração, acaba tornando a abordagem sobre cada um deles algo implacavelmente superficial. Os muitos paradoxos, algo usual em todos os filmes que abordam de alguma forma viagens no tempo, são prejudicados pelos problemas já citados. Quando a trama é bem executada, você investe emocionalmente no que está sendo mostrado, você se afeiçoa organicamente aos personagens, então não se apega em tempo real aos paradoxos. Como o estilo de Nolan prima pelo excesso didático, os paradoxos se destacam na narrativa como um elefante numa loja de cristais. Um exemplo desse didatismo tolo em algo que não é um paradoxo: o personagem de Matt Damon, após mostrar sua real intenção, vira as costas para o protagonista à beira da morte. Na expressão de seu rosto, ele já diz tudo, mas o roteiro insere um texto bobo onde ele verbaliza algo como: "não consigo ver isso, eu pensei que conseguiria, mas não consigo". Vale comparar a reação dos astronautas desse filme ao encontrarem o buraco negro, momento que vira papo de botequim elegante, com a magistral sequência de "2001", onde o astronauta atravessa em silêncio o portal das estrelas, evidenciando que a mente humana não está preparada para esse tipo de contato. 

Para os admiradores do cineasta, no que me incluo, é ótimo encontrar as características sequências espetaculares com montagens paralelas, assim como é válido aplaudir novamente sua coragem, mas unindo os fracos quarenta minutos iniciais, que emulam as piores características do cinema de Spielberg, e um terceiro ato estruturalmente frustrante, acredito que, por mais impactante que seja o primeiro contato com a trama, com um tema fascinante e algumas reviravoltas espertas, suas falhas tendem a se destacar bastante em revisões. Apesar de seus inegáveis méritos filosóficos, especialmente a partir do ponto em que o protagonista é levado por uma inteligência do futuro a interagir em sua própria linha temporal, aquela maravilhosa ambição narrativa que é tão rara na indústria norte-americana, esse talvez seja o filme do diretor que irá envelhecer com menos graciosidade. 





* A ótima novelização de "Interestelar", escrita por Greg Keyes, a partir do roteiro de Christopher e Jonathan Nolan, está sendo lançada pela editora "Gryphus Geek".

quinta-feira, 9 de junho de 2016

A Gênese de Stanley Kubrick


Medo e Desejo (Fear and Desire - 1953)
Quatro soldados sobrevivem à queda de seu avião e se encontram em uma floresta a seis milhas atrás das linhas inimigas. O grupo, liderado pelo tenente Corby, tem um plano - fazer seu caminho para um rio próximo, construir uma jangada e, em seguida, à noite, flutuar de volta para território amigo. Seus planos para voltar com segurança são desviados por uma jovem mulher que se depara com eles.

Com exceção de “Lolita”, o único que pode ser considerado irregular, a filmografia de Stanley Kubrick é impressionantemente formada por obras-primas em variados gêneros. Esse primeiro trabalho, financiado pelo próprio diretor, acumulando funções como forma de driblar as limitações orçamentárias, já demonstra incrível domínio de câmera, além de uma preocupação pouco usual com o subtexto filosófico que move a narrativa, explorando com lirismo os sentimentos dos soldados que lutam para que a loucura não os domine, mérito do roteiro de Howard Sackler. Há também influência de Eisenstein na forma como ele trabalha as elipses visuais em uma sequência de ataque. Também é válido citar a curiosa reutilização de atores em lados opostos na batalha, algo que pode não ser percebido numa primeira sessão, mas agrega camadas de interpretação em revisão. Essa abordagem sobre as consequências desumanizantes de uma guerra voltaria a ser trabalhada pelo diretor, com maior eficiência, em "Nascido Para Matar", mas é preciso salientar a coragem desse comentário social defendido com segurança por um cineasta de pouco mais de vinte anos de idade, no período em que o mundo ainda estava se recuperando da Segunda Guerra Mundial, com direito a uma insinuação de estupro que desafiava os censores. A atmosfera que remete aos episódios de "Além da Imaginação", esforço consciente de retratar a estupidez do conflito como algo surreal, transforma a floresta em algo quase sobrenatural, um purgatório onde os personagens andam em círculos, sem esperança de redenção.


A Morte Passou Perto (Killer's Kiss - 1955)
Em Nova York um lutador de boxe conhece uma dançarina quando esta é atacada por seu patrão e amante. Este acontecimento acaba provocando o envolvimento dos dois, mas o amante preterido, dominado pelo ciúme e pelo ódio, manda matar seu rival. Entretanto, em virtude de um equívoco, os capangas matam o empresário do lutador. O casal, vendo que corre perigo, tenta deixar a cidade para sempre.

Também financiado na garra, com ajuda do dinheiro emprestado de um tio, essa segunda produção pode parecer convencional na superfície, menos ambiciosa em suas ideias que a anterior, mas um olhar atento encontra um jovem audacioso tentando deixar sua marca. A estrutura é a do noir, desconstruído ao optar por um final feliz, contado em flashback com utilização generosa de monólogos internos, cortesia de Sackler, emoldurando um triângulo amoroso aparentemente simples, entre um boxeador, uma prostituta e seu cafetão. Kubrick substitui a alegoria de “Medo e Desejo” por uma visão mais realista, quase patética, desses personagens inseridos em uma sociedade corrompida. Em uma incrível sequência de boxe, dá pra perceber a fonte em que Scorsese bebeu para o seu “Touro Indomável”, com uso de câmera na mão em ângulos expressionistas e priorizando o som da respiração dos lutadores. Mais adiante, numa criativa cena de sonho onde a câmera atravessa rapidamente uma rua, a imagem em negativo antecipa um recurso que o diretor utilizaria em “2001 – Uma Odisseia no Espaço”, na famosa sequência do túnel espacial. Mas nenhum momento deixa mais clara a audácia de Kubrick que o longo conflito final entre o boxeador e o cafetão, testemunhado por vários manequins femininos em um depósito. Na selvageria dos dois, chegam a utilizar aquelas bonecas como arma, uma interessante metáfora visual, eles lutam de forma inconsequente, até desajeitada, pelo domínio daquela passiva mulher-objeto.


O Grande Golpe (The Killing - 1956)
Quando o ex-presidiário Johnny Clay (Sterling Hayden) diz que tem um grande plano, todos querem participar. Especialmente quando o plano é roubar 2 milhões de dólares em um esquema "ninguém vai se machucar". Mas, apesar do planejamento cuidadoso, Clay e seus homens se esqueceram de uma coisa: Sherry Peatty (Marie Windsor), uma garota ambiciosa e traiçoeira que está planejando um grande golpe só seu.

Após dois projetos de guerrilha com estéticas muito originais, esse ótimo filme de assalto mostra um diretor mais domado, com tudo calculado, buscando a apreciação do público mainstream, uma atitude que culminaria no épico “Spartacus”, excelente produto comercial, mas longe dos experimentos mais autorais que ele retomaria com “Dr. Fantástico”. Trabalhando pela primeira vez com financiamento profissional, um orçamento mais digno, o que possibilitou a entrada de um diretor de fotografia, o competente Lucien Ballard, o jovem conseguiu escalar atores experientes, como Sterling Hayden e Elisha Cook. O desfecho inesquecível, que não ousarei revelar para não estragar a experiência de quem ainda não viu, só tem aquele impacto maravilhoso graças à impecável construção de clima desde a primeira cena, um suspense que só é eficiente porque o roteiro estabelece personagens verdadeiramente interessantes, ainda que nada carismáticos. O próprio protagonista, vivido por Hayden, parece ser incapaz de expressar qualquer emoção. Por outro lado, temos George (Cook), a representação da fragilidade humana, um patético marido que é atraído ao crime como forma de tentar reconquistar a admiração da esposa, um respeito que nunca existiu na relação. Na execução do plano do grupo, Kubrick esmerilha ao ousar trilhar um caminho não linear, sobrepondo ações dos ladrões no que se torna um quebra-cabeça instigante, atitude que até mesmo no cinema moderno poderia ser considerada arriscada demais por muitos produtores. A coragem que o cineasta já apresentava em seu primeiro trabalho encontra aqui sua voz mais madura. 


Glória Feita de Sangue (Paths of Glory - 1957)
Quando soldados franceses nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial recusam-se a continuar um ataque aparentemente impossível de se vencer, seus superiores resolvem levá-los à corte marcial, onde poderão ser julgados à morte.

Poucas cenas na história do gênero são mais impactantes em seu simbolismo, após várias exibições de barbárie no campo de batalha, Kubrick opta por encerrar o filme com a desilusão do coronel, vivido brilhantemente por Kirk Douglas, ao ver seus soldados debochando de uma tímida jovem alemã, que chora enquanto é levada a subir contra sua vontade num palco improvisado, totalmente indefesa. Eles exigem que ela cante algo pra entreter a tropa. A voz dela, imbuída da resistência que só é explicável pela dignidade que ainda luta para se manter ereta, acaba tocando os recônditos da memória afetiva dos soldados, aquela frágil lembrança dos indivíduos livres que eles foram antes do militarismo os transformar em máquinas que aceitam ordens sem questionamento. Aos poucos, a voz fraca vai calando os gritos, os adultos se tornam crianças com saudade de suas mães, eles choram mesmo sem plena compreensão da letra entoada em outra língua, lágrimas que representam a dor de toda a humanidade perante a loucura da guerra. Aquela música salientou a estupidez que os colocava em posições opostas, um recurso simples e brutal que nunca foi igualado em obras similares. A esperança reside no simbolismo desse desfecho, ainda há humanidade, corroborando a atitude do coronel que atuou como advogado de defesa de três de seus soldados, contra a covardia de seus superiores. A jovem atriz da cena final, Christiane Harlan, no ano seguinte se casaria com Kubrick, um relacionamento que durou até o falecimento do cineasta, em 1999. 







Os filmes estão sendo lançados em Blu-ray pela distribuidora "Versátil", com a curadoria sempre impecável de Fernando Brito, na caixa "Kubrick Essencial", em parceria exclusiva com a Livraria Cultura, que conta também com os três curtas iniciais do diretor e excelentes documentários sobre cada projeto.