sábado, 14 de março de 2015

"Livre", de Jean-Marc Vallée


Livre (Wild - 2014)
O roteiro de Nick Hornby insere os fragmentos de memória da personagem, inteligentemente evitando o erro de querer explicar tudo, elaborando cenas que parecem intencionar confundir a percepção do público sobre as suas possíveis motivações emocionais, falhando apenas no excesso de narrações e em algumas soluções visuais convencionais. Outro problema da produção é a atuação de Reese Witherspoon, que convence nos momentos que precedem sua jornada, como em sua interação com a mãe, vivida por Laura Dern, mas não consegue expressar a turbulência mental, as variações psicológicas de alguém que é levado ao extremo, deixando a impressão de que estamos assistindo uma “Barbie no Deserto”, cujo corpo maquiado nunca se queima com o sol. Uma versão light e inverossímil do excelente “Na Natureza Selvagem”, de Sean Penn.

O projeto foi trabalhado na medida para o reconhecimento da Academia, mas a necessidade de colocar cada atitude em sua aventura em contexto com o passado da personagem acaba travando qualquer conexão empática. Existem exceções, como a bela analogia simbolizada na cena em que a jovem luta desesperadamente para ficar de pé, aguentando o peso de sua mochila, como um bebê que aprende a andar, ela terá que reiniciar todo o seu sistema pessoal, reaprender a enxergar a vida utilizando seus instintos mais primais, como forma de expurgar seus erros. O tom da cena é, de forma canhestra, cômico pastelão, mas prefiro relevar e acreditar que existia uma ambição metafórica nela. Mas, infelizmente, o diretor Jean-Marc Vallée opta na maior parte do tempo pela tradicional câmera que minimiza a atriz na imensidão do cenário, talvez, por saber que seria arriscado manter o foco no rosto dela, ficando dependente de seu talento limitado. A intensa transformação interna que ocorre ao final existe apenas em teoria, somente porque a personagem nos informa disso, já que não há nada no filme que evidencie estarmos diante de alguém narrativamente mais maduro/evoluído.

Os perigos que a jovem encontra, de cobras a tentativas de estupro, são apresentados de forma preguiçosa, sendo facilmente esquecidos pelo roteiro, e, por conseguinte, pela personagem, com uma canção melodramática, virando a página para um novo obstáculo, sem nunca sentirmos realmente que ela está em perigo. A ideia de uma pessoa, sem nenhum conhecimento básico sobre acampamento, aparentemente incapaz de fritar um ovo e esquentar água, decidir se aventurar em uma caminhada solitária por três meses, atravessando os locais mais inóspitos possíveis, por mais que seja a adaptação de uma autobiografia, soa incrivelmente estúpida. Ao invés de reutilizar as tradicionais tomadas lúdicas do amplo cenário, sequências que constam no manual de como se filmar uma jornada de autodescobrimento, o filme poderia se aprofundar nas consequências emocionais de cada obstáculo superado, construindo alguém tridimensional com quem o público pudesse se identificar. 

"Busca Implacável 3", de Olivier Megaton


Busca Implacável 3 (Taken 3 - 2014)
O que esperar de um filme que, no desespero de lucrar mais alguns dólares, subverte a função do próprio título? A única razão lógica para o “Taken” é como símbolo do valor do ingresso e do precioso tempo que nos são tomados, enquanto tentamos não perceber que o diretor não possui a menor noção de ritmo. Ao invés de acompanharmos a caçada do personagem de Liam Neeson, o fraco roteiro, de Luc Besson e Robert Mark Kamen, copia a estrutura de “O Fugitivo”, um plot twist que já soaria previsível na década de noventa. A execução transparece o desânimo geral, faz parecer que nenhum profissional está realmente motivado a participar do projeto. 

O primeiro ato é especialmente ruim, moroso, com furos agressivos e alívios cômicos constrangedores, como a longa piada com o protagonista e o urso de pelúcia, uma forma canhestra de estabelecer novamente o personagem como uma figura paterna carinhosa, e, pior ainda, a cena que envolve o detetive, vivido por Forest Whitaker, e um delicioso Pretzel. É um senso de humor tolo, antiquado no gênero, até para os padrões das produções recentes de Steven Seagal. A montagem excessivamente caótica nas cenas de ação tenta construir um senso de perigo que é inexistente, com a estética de destruição maximizada sobrepujando a lógica narrativa, desrespeitando o desenvolvimento do personagem, transformando o herói reativo em um inconsequente matador, como um Jason Voorhees que é capaz de explodir um prédio lotado de famílias, para eliminar um vizinho chato. 

O filme original era eficiente, tinha ideias convencionais, mas tinha um protagonista motivado e era bem executado. Já essa bomba, caso fosse lançada fora da franquia, provavelmente seria distribuída direto no mercado de vídeo. 

"Antes de Dormir", de Rowan Joffe


Antes de Dormir (Before I Go To Sleep - 2014)
O cinema adora trabalhar o tema da perda de memória. O problema é que o roteirista/diretor Rowan Joffe parece sofrer da mesma patologia de sua protagonista, esquecendo subtramas e deixando no caminho várias pontas soltas, conduzindo a um desfecho narrativamente incoerente e intelectualmente insatisfatório, um anticlímax desnecessariamente meloso. As tentativas de manipular o público em direções erradas, elemento importante em obras de mistério, falham essencialmente por serem fundamentadas em atitudes totalmente inverossímeis, inconsistentes. Uma experiência estranhamente misógina, ainda que adaptado do livro de uma autora, que, numa leitura mais profunda, de alguém muito interessado em filosofar sobre a letargia, trabalha metaforicamente a odisséia traumática da protagonista como um torto julgamento moral, uma punição para o adultério.

Com execução simplória de especial para televisão e soluções que caberiam melhor em uma novela, é impressionante tentar compreender a razão que fez Nicole Kidman, Colin Firth e Mark Strong assinarem seus contratos. A trama prefere a repetição, durante o segundo ato, mostrando ad nauseam o marido explicando para a esposa sua situação, ao invés de se aprofundar no desenvolvimento dos personagens, solidificando as motivações, intensificando o desespero de alguém que esquece tudo a cada despertar. Algumas questões interessantes, como a reflexão comportamental sobre as atitudes que tomaríamos com alguém, caso soubéssemos que a pessoa iria se esquecer de tudo no dia seguinte, as decisões que nos mantém íntegros e corretos, são esquecidas em prol de cenas formulaicas de sustos e outras bobagens. 

Com um diretor mais ousado, interessado em trabalhar as metáforas de forma visual, poderia ter resultado em um produto melhor. O amadorismo de Joffe, sem elegância alguma, destruiu qualquer potencialidade que havia na adaptação da obra da autora S.J. Watson. 

quarta-feira, 11 de março de 2015

"O Abutre", de Dan Gilroy


O Abutre (Nightcrawler – 2014)
O primeiro trabalho como diretor do roteirista Dan Gilroy é simplesmente brilhante. A melhor sequência, dentre várias que poderia destacar, representa a esperteza do roteiro em inserir o espectador na pungente crítica que direciona ao jornalismo baixo e imediatista que é realizado nos dias de hoje. Como eu sempre digo: a sociedade não cria os abutres, ela os alimenta. Na sequência do crime na mansão, Gilroy nos convida a seguir os passos do protagonista Lou Bloom, vivido impecavelmente por Jake Gyllenhaal, uma longa travessia por corpos ensanguentados, num crescendo de horror que, por incrível que pareça, não suscita reação alguma no rosto do jovem que manipula sua câmera como uma arma. A frieza dele, planejando cada passo, até mesmo modificando elementos na cena, objetivando captar o brutal cenário da forma mais cinematográfica, por conseguinte, mais atraente para a sua cúmplice na estação de televisão, vivida por Rene Russo, sua alma gêmea na total ausência de caráter e ética.

Um sociopata se define pelo comportamento antissocial, sem amarras morais, podendo apresentar tendências criminosas. Bloom é mostrado em seu cotidiano como alguém que rega sua plantinha, ou registrando suas participações na televisão, porém, fora isso, ele parece não ter amigos, namorada, em suma, ele carece de empatia e vive uma rotina sem nenhum apego com a sociedade. A sua atitude arrogante, que consiste em, invariavelmente, e de forma cínica, manter o foco da atenção em suas ações, uma imagem distorcida de autoavaliação, que transparece uma segurança fora do comum. A sua interação com os outros é limitada a frases rápidas, abordagem direta, como um titereiro habilidoso, resultando em relacionamentos intensos e instáveis, objetivando apenas sua ambição impulsiva de momento: crescer na indústria do telejornalismo, aproveitando a brecha dos profissionais sem escrúpulos e a fome de um público, os abutres, que consomem esse sensacionalismo barato. Quem se opuser a esse caminho, será simplesmente eliminado.

Ele sabe que quanto mais demorar sua exploração, melhores serão os números de audiência, o espectador chocado terá tempo de avisar o vizinho, os familiares, os colegas de trabalho. O momento mais inteligente ocorre quando ele adentra o quarto do bebê. Nós não sabemos absolutamente nada sobre aquela família, apenas visualizamos um quarto decorado de forma infantil, com um berço posicionado no centro. É quando o roteiro implacavelmente nos insere na crítica. O personagem se aproxima lentamente do berço, fazendo com que nós compartilhemos o mesmo frenesi daqueles que perdem vários minutos na frente da televisão acompanhando uma perseguição de carro ou um sequestro em tempo real. Nós, os abutres que somos alimentados por esse jornalismo cretino. Nós que não conseguimos desviar os olhos, numa mistura de sentimentos humanamente ambíguos, por um lado, desejando que o bandido seja preso logo, por outro, desejando que ele consiga driblar a polícia por mais tempo, para que aquela emoção da caçada nos tire de nosso cotidiano apático.

É exatamente o sentimento odioso que mantém programas sensacionalistas policiais no ar, com tanta audiência, invadindo as casas dos brasileiros até mesmo na hora do almoço. Voltando à cena, o diretor corta antes de revelar o interior do berço. A intenção é nos estimular a repulsa por algo que não vimos. O espectador comenta com sua companhia na sessão: “Nossa, ele filmou até o bebê morto, que monstro insensível”. Alguns minutos depois, como que com um sorriso sarcástico de quem provou sua tese com louvor, o filme revela que não havia bebê algum no berço, aquele quarto, provavelmente, estava sendo preparado para uma criança que ainda não nasceu. E, mais além, descobrimos que a mansão era de traficantes de drogas.

Todo o investimento emocional do espectador, tanto o real, quanto o do noticiário na obra, foi manipulado pela irresponsável estação de televisão, que, numa atitude coerente à podridão de todos os atos anteriores, decide se negar a evidenciar essa conclusão. O mais importante para um jornalismo imediatista é que o público, resumido a números numa conta bancária, se mantenha na frente da televisão, ou folheando as páginas do jornal, pelo maior tempo possível. Contar a eles que a pobre família vítima dos assassinos era, na realidade, um bando de criminosos, iria afastar o público. Quando o jornalismo perde o senso de moral, ele se torna uma busca desesperada por manchetes sensacionalistas, simplificando qualquer discurso a imagens de impacto, visando o choque, nunca a reflexão. Essa longa sequência é apenas um dos motivos que fazem com que o filme seja uma obra espetacular, pensada para adultos, com uma coragem que faz falta na indústria.

Razzle Dazzle - "Grease - Nos Tempos da Brilhantina"

Link para os textos do especial:


Grease – Nos Tempos da Brilhantina (Grease – 1978)
O primeiro contato que eu tive com o filme foi, por volta dos nove anos, através de sua adaptação literária, escrita por Ron de Christoforo e lançada pela editora Record, um dos livros que meu avô materno guardava em sua casa na região serrana, onde eu costumava passar as férias escolares. Um detalhe nele que me intrigava era a chamada na capa: Ilustrado com fotos do filme. Eu folheava com toda atenção, mas nunca encontrei sequer uma ilustração. Falha do livro, que instigou ainda mais minha curiosidade. Era uma época sem internet, vale ressaltar. Nessa época, eu não conhecia as músicas, nunca tinha assistido qualquer cena. Conheci a trama de uma forma totalmente desassociada da relevância da obra na cultura pop. Eu não imaginava as canções sendo entoadas nos momentos específicos nas páginas, apenas embarquei naquela história nostálgica de amor.

Os anos foram passando e eu acabei escutando as canções mais famosas, enquanto estava bebendo generosamente da fonte de Elvis Presley e dos Beatles, apaixonado por aquele período histórico que é celebrado no projeto. Fiz minha mãe me levar na loja de CD’s do Shopping Center, quando ainda eram templos enormes do bom gosto, para adquirir a trilha sonora. A vendedora brincou comigo, achou esquisito aquela criança com interesse em um “filme tão antigo”, como ela disse. Quando eu inseri o CD no computador, uma grata surpresa, uma faixa multimídia com trechos das canções interpretadas no filme. Eu, enfim, iria assistir algo daquele universo que povoou minha imaginação desde a leitura do livro. É difícil transmitir a sensação, mas eu me lembro de sentir angústia, já que nenhum trecho estava completo, exibia apenas alguns segundos. “Hopelessly Devoted to You” iniciava depois do refrão, “Greased Lightning” terminava antes dele, era terrível. Nenhuma locadora tinha o VHS, torcia para que passasse na televisão. Acabei assistindo pela primeira vez e gravando numa fita que viria a se deteriorar, se não me falha a memória, numa “Sessão da Tarde” global. O resultado: Imitei os trejeitos de Danny Zucko pelo resto do ano na escola. Quando alguns poucos colegas se reuniam em volta de mim na hora do recreio, por qualquer motivo, eu me imaginava cantando “Summer Nights”. Na aula de educação física, tentava correr mais rápido que os outros, para impressionar minha Sandy, uma linda menina que nem sabia que eu existia.

A abertura, ao som de “Grease”, cantada por Frankie Valli, em animação, já coloca o espectador no clima perfeito, demonstrando que a caricatura é o tom escolhido pelo diretor Randal Kleiser, elemento captado inteligentemente nas coreografias de Patricia Birch e simbolizado no desfecho com o carro voador. A química entre John Travolta e Olivia Newton-John carrega a produção nas costas, disfarçando bem o fato de que são adultos interpretando pré-adolescentes que se comportam como pré-adolescentes. Qualquer outro casal poderia ter estragado a imersão. A trilha, fundamental, acerta ao apostar nos clássicos: “Blue Moon”, “Hound Dog”, deixando espaço também para referências metalinguísticas ao próprio cinema, como “Love is a Many Splendored Thing”, tema de “Suplício de Uma Saudade”. “Sandy”, entoada melancolicamente por Travolta, sentado em um balanço, nos remete diretamente a uma vertente clássica do rock, as canções que homenageiam no título as musas que fizeram o roqueiro descobrir que tinha coração, após percebê-lo despedaçado. Como esquecer “Beauty School Drop-Out”? Uma bonita homenagem a um dos grandes símbolos da era dos filmes de praia, como “Beach Party”, Frankie Avalon, que sempre fazia par com a adorável Annette Funicello.

É interessante a forma como o roteiro trabalha o arco narrativo da personagem Sandy, conduzindo-a durante todo o filme como um estereótipo clássico das heroínas dos musicais grandiosos de Hollywood, educada e gentil, para transformá-la ao final em uma rebelde grosseira e sexy, uma crítica divertida às resoluções dos musicais da era de ouro do rock, que, em teoria, adotavam uma atitude rebelde, porém, na realidade, sempre davam um jeito de adequar os protagonistas ao padrão comportado da sociedade. Os personagens rebeldes de Elvis, por exemplo, podiam começar o filme arrebentando bares e tocando o terror, mas, inevitavelmente, acabavam como os genros que toda mãe queria para suas filhas. Sandy joga fora seu vestidinho de boneca e entra pra gangue da jaqueta de couro, transformando o líder dos rapazes, o arrogante falastrão dos T-Birds, em uma donzela em perigo. Até o gestual de Travolta, no início da ótima “You’re The One That I Want”, pode ser considerado, de forma proposital, exageradamente efeminado.